Adorei este livro. É a minha estreia com o escritor e não podia ter corrido melhor.

Um livro escrito a duas vozes: uma feminina, a de Mariamar e outra masculina, a do Arcanjo Baleio, o caçador. Duas perspectivas duma mesma história. E não podiam ser mais diferentes.

Os leões estão a matar no Norte de Moçambique e, por razões políticas (sempre por razões políticas!), é organizada uma caçada aos leões assassinos. Arcanjo Baleiro, 16 anos depois de ter sido contratado para matar um crocodilo no rio, volta a Kulumani para caçar os leões.

A premissa desta história parece simples mas neste livro tudo se complica, o real mistura-se com a superstição, a crença enleia-se com místico, o preconceito esconde-se na tradição. Nada é completamente real nem completamente fantasioso. 

Mia Couto conta-nos uma realidade de extremos, expõe o lado selvagem do ser humano, desumaniza o homem, endeusa a mulher, aproxima gente e animais selvagens. A guerra, a fome, o preconceito, a superstição, a maldade são tudo condimentos que constroem esta fábula.

Mariamar é uma personagem maravilhosa. Arcanjo nem por isso, pelo menos na minha opinião. Mas a verdade é que são sempre as personagens femininas que me fascinam. 

Não vou falar mais da história porque esta é uma leitura para ser apreciada por quem a lê. Com uma escrita maravilhosa (deve ser impossível traduzir este livro e manter intacta a sua essência) acredito que cada um de nós a lerá de sua forma e dela tirará ensinamentos diferentes.