06
Set12
Maria do Rosário Pedreira
Às vezes, pode parecer que não ouço (leio) o que dizem os leitores destas Horas Extraordinárias, mas a verdade é que foi por causa de um deles que levei para férias um livro cuja leitura se encontrava havia muito em stand-by – Matteo Perdeu o Emprego, de Gonçalo M. Tavares. Trata-se, antes de mais, de um objecto artístico singular, muito cuidado, no qual não importa apenas o texto, mas também o conjunto de fotografias de manequins que representam os protagonistas das curtas ficções (com nomes de A a M – Matteo é o último), quase todos do sexo masculino, e bem assim uma tabela periódica de cidades, e não de elementos, embora a de Mendeleev também apareça no livro, na forma de uma tatuagem em Braille nas costas de um prostituto que é amante de um cego. Mas este não é um livro de contos no sentido tradicional, uma vez que, a seguir à história de Matteo (que é, de certa forma, a mais desenvolvida), temos um curiosíssimo posfácio que é a exegese do que acabámos de ler, feita pelo autor como se por alguém que não ele. E a verdade é que esse «ensaio» nos leva de novo às narrativas, num movimento mais ou menos circular – como é o dos textos, pois cada um deles liga ao seguinte através de um nome novo (o do protagonista da história que se segue) e, curiosamente, o último nome que aparece (e cuja história nunca saberemos) é o de alguém que assistiu à morte do protagonista da primeira história. Livro sobre a ordem e o caos, sobre o indivíduo e o colectivo, sobre o império da racionalidade sobre a emoção (tudo aqui é bastante frio), Matteo Perdeu o Emprego é uma obra que nos deixa permanentemente a pensar.