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Depois da série incrível «Say nothing» sobre os conflitos na Irlanda do Norte nos anos 60 e 70, «Transgressões» de Louise Kennedy pareceu-me uma boa aposta.

Neste livro, temos uma personagem principal - Cushla - uma mulher católica a viver perto de Belfast que é professora durante o dia e, de noite, trabalha no pub do irmão e toma conta da mãe alcoólica.

Um dia, Cushla conhece Michael, um homem mais velho, advogado, casado e protestante. Os dois vão desenvolver uma relação em encontros secretos e telefonemas sussurrados. Claro que isto não vai correr bem...

Este é um livro lento que vive muito das subtilezas. Os soldados britânicos que se metem com Cushla no pub. As barreiras constantes e as revistas dos militares à procura de bombas nos carros (e em guarda-chuvas... mas dá sequer para colocar uma bomba num guarda-chuva?). Cushla a sair da igreja e a apagar apressadamente a cruz feita pelo padre na testa. O padre a visitar as crianças na escola católica e a contar histórias sobre o pecado. A pobreza. Um dos alunos de Cushla a comer uma bolacha com creme no meio e a dizer "So this is how the other half lives". O alcoolismo da mãe de Cushla que me fez lembrar «Shuggie Brain» de Stuart Douglas. As notícias que as crianças ditam todos os dias nas aulas e que incluem sempre assassinatos e bombardeamentos. As referências à IRA. O pai de uma das crianças da escola que é brutalmente agredido e abandonado num campo de Belfast.

Nesta cidade, o relevante não é o que a pessoa faz, é o que a pessoa é, fez-lhe notar ele.

Adorei a escrita de Louise Kennedy. O livro vai-se desenvolvendo lentamente e depois implode no fim para todos os personagens. É um livro extremamente bem escrito e duro. O final, não sendo feliz, é aquilo que se poderia esperar do caos em que as personagens estavam mergulhadas. Gostei muito.