(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de setembro de 1996)
Talvez muita ente considere Márcia Frazão (devido à sua autodenominação como bruxa) a contrapartida feminina do “mago” Paulo Coelho, dentro da atual onda esotérica, porém uma grande diferença os separa: a qualidade da escrita. Enquanto o autor de O Alquimista parece ter como alvo o leitor semialfabetizado, de pouquíssima cultura, informação e capacidade de atenção, ela consegue cativar com a sua prosa, sem precisar rebaixar-se ao nível da cartilha Caminho Suave, com a qual exercitávamos antigamente nossos balbucios na linguagem formal.
Coloquemos as cartas na mesa: o leitor não precisa levar a sério o que está sendo dito em O GOZO DAS FEITICEIRAS, que a editora Bertrand está lançando com grande esmero visual. Eu não consegui convencer-me com a proposta ou clima esotéricos do livro. Mas fiquei embalado pelo clima de cumplicidade que a autora estabelece logo de saída, com suas histórias sobre as avós e as tias, sobre sua descoberta dos deuses gregos que formam o fio da meada do livro (Dionísio, Afrodite, Eros), sobre as experiências da chamada “geração hippie”, sobre os autores que ela ama, sobre a capacidade de tornar “mágico” o quotidiano, gostar dos animais, cultivar o riso…
Enfim, o livro defende o gozo e transforma-se num gozo para o leitor, através do ritmo saboroso da voz narrativa de Márcia Frazão em meio às citações (sempre pertinentes e inteligentes) e referências a Jung, Mircea Eliade, Safo, Karl Kerénye, Fernando Pessoa, Hesíodo, Homero, Hölderlin, Maria Callas, Wilhelm Reich, Platão… E a obras como As Bacantes, Hipólito e As Troianas, de Eurípides, que embasam o seu pensamento e sustentam o arcabouço do seu texto.
Em meio a tudo isso, letras de música, receitas, sonhos, uma tapeçaria culta e envolvente de uma Sherazade com muita disposição e lábia para nos entreter mil e uma noites (e talvez por isso o livro fica por vezes um pouquinho repetitivo).
Em O GOZO DAS FEITICEIRAS vemos como uma obra bem escrita consegue, no momento da sua leitura, e independente das convicções do leitor, circunscrever a realidade, ou melhor, plasmá-la conforme a versão do autor e conforme seu vocabulário específico. E essa realidade reinterpretada, transformada, nos envolve e nos faz aderir a essa visão, mesmo que depois percebamos que não é bem assim que vemos o mundo e que não podemos aceitar de todo essa versão e esse léxico.
É mais fácil com uma obra de ficção. Com uma que se quer um testemunho pessoal, uma declaração de princípios, caso do texto de Márcia Frazão, a coisa se complica. E é aí que interfere o talento da autora: não estamos diante de alguém tosco, raso ou meramente comercial. E nem estamos diante de um livro com mal digeridas e pueris noções esotéricas. Estamos diante de alguém com uma ética toda articulada em seus próprios termos e de um livro que defende a tolerância. E que, visto sob esse prisma, cresce enormemente.
Num discurso pós-feminista convencional, como há tantos, a defesa da integridade do “ser feminino”, sufocada por séculos de dominação (e doutrinação) masculina, encheria as medidas (pelo menos, as minhas medidas, bem entendido), ainda mais utilizando uma terminologia onde entram bruxas, sacerdotisas, Grandes Mães, Liliths…
No sedutor discurso de Márcia Frazão, a tolerância e a disposição de ouvir o outro dão o tom, e nos levam para o mundo do ambivalente, do fascínio-horror que Octavio Paz vislumbra no transcendente, a capacidade de ver o sagrado como circense, pois nos leva ao riso e ao delírio, à embriaguez lúcida: “Não lhes direi, no entanto, que a convivência com os antigos deuses seja fácil. Por vezes nos assustamos com seu caráter flutuante, onde Bem e Mal boiam nas mesmas águas (…) Nem sempre nos sentimos confortáveis lidando com divindades detentoras dos mais variados atributos, pois desde cedo nos é ensinada a rigidez dos significados. Penso que talvez, por culpa disso, tenhamos desenvolvido uma enorme intolerância com nossos semelhantes, sempre nos decepcionando com o outro toda vez que ele escapa de um comportamento já conhecido por nós”.
O lado lúdico do texto nos ajuda a sentir isso com mais força, com suas receitas e sortilégios para uso do vinho, das ervas, em determinadas luas. Não é preciso colocá-los em prática ou acreditar neles literalmente (eu não acredito, sinto muito). Há todo um lado poético, encantatório e, em última instância, ético-insurgente nessas receitas e sortilégios, que fazem desse livro um exercício quase cortazariano de transformação do quotidiano em coisa significativa, ou percepção do cotidiano enquanto coisa significativa, melhor dizendo.
Se foram os antepassados (sobretudo os femininos), tão homenageados no decorrer de O GOZO DAS FEITICEIRAS, que deram a ela esse dom de transformação do real e de entreter com sua prosa, tais ancestrais podem orgulhar-se: ler Márcia Frazão é um prazer.



