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| Fotografia da minha autoria |
«Não confie em tudo o que você vê»
As sextas à noite tinham sempre o mesmo ritual: acabar na sala azul da gelataria artesanal do bairro, porque nada sabia tão bem como entrar de fim de semana a provar um novo sabor num cone de bolacha. Margarida não precisava de grandes luxos para alimentar a sua veia sonhadora, mas estava longe de imaginar que a sua vida não voltaria a ser igual.
Do outro lado da rua, estava um carro cinzento parado. Sem levantar suspeitas, uma vez que não era o único a ocupar aquela zona de estacionamento gratuito. O problema é que, no seu interior, encontrava-se alguém com um plano sombrio, maquiavélico, pronto a ser executado. Só era necessário esperar. Aguardar um pouco mais. Tal como vinha a fazer há três semanas, desde que saiu a peça sobre a nova forma de adulterar bebidas em espaços públicos. Com o alvo na mira, foi controlando cada passo, cada compromisso, cada interação social. Naquele local tão pacato, onde quase todos se conheciam, teve de arranjar maneira de camuflar a sua presença. Por isso, estar dentro daquele Peugeot não era uma decisão inocente, mas, se tudo corresse bem, ninguém viria a descobrir aquele traço de ilusão - muito sublime.
Enquanto saboreava a bola com sabor a mirtilo, Margarida contemplou, primeiro, a parede coberta de taças coloridas e, logo de seguida, olhou pela janela, para observar a Lua e para alinhar a estratégia que lhe permitiria aprofundar o tema do seu artigo, porque sabia que havia algo mais naquela história. Sentiu, então, o coração acelerado, mas optou por não valorizar o sucedido. Chamada à realidade pelo seu toque de mensagens, pegou no telemóvel e viu a que tinha acabado de receber: «Estou a sair, posso passar por tua casa?». Sem perder tempo, levantou-se para pagar e saiu, perdendo o sorriso no mesmo instante.
Mal colocou um pé na rua, sentiu um braço a arrastá-la, rodeando-a para a imobilizar. Apenas teve tempo para um grito pouco vibrante, mas que foi suficiente para desencadear burburinho na gelataria. No entanto, apesar da rapidez com que responderam àquele débil pedido de socorro, pouco puderam fazer, porque a rua estava deserta. Mas, de imediato, encontraram o cone de bolacha desfeito no passeio e um bilhete: «nem tudo deve ser escrito. Nem tudo é um amor e um gelado».
