François Villon nasceu em Paris no ano de 1430. De sua morte, são desconhecidas a data e a circunstância.

Dois aspectos centrais estão ligados ao nome desse homem: primeiramente, o de ser o primeiro poeta moderno da literatura francesa. Nas palavras de Otto Maria Carpeaux, é “um homem inteiramente moderno em pleno século XV: poeta nosso.”[1]

Segundo fato: François Villon era um criminoso. Boêmio, encrenqueiro, ladrão, assassino, uma criatura de reputação pouco louvável. Uma vida marcada por prisões, fugas e mentiras.

A presença indubitável de Villon entre a galeria dos gênios da arte nos traz uma questão intrigante: conseguimos aprovar uma obra cujo produtor reprovamos? Ou seja, como é ou como deve ser a relação que estabelecemos entre a apreciação de uma obra de arte e o nosso juízo acerca da pessoa que a produz?

Deixo a questão em aberto, para debatermos nos comentários.

Desenho de Goya

A Balada dos enforcados, reproduzido abaixo, é um dos pontos mais altos da poesia de Villon. Sobre ela, comentou Carpeaux:

(…) o malandro condenado, sabendo que a forca o espera, toma a liberdade de exprimir aqueles lugares- comuns de maneira diferente, quer dizer, pessoal.[2]

O texto foi colhido da antologia traduzida por Péricles Eugênio da Silva Ramos[3]:

Balada dos enforcados

Irmãos humanos que depois de nós viveis,

Não tenhais duro contra nós o coração,

Porquanto se de nós, pobres, vos condoeis,

Deus vos concederá mais cedo o seu perdão.

Aqui nos vede pendurados, cinco, seis:

Quanto à carne, por nós demais alimentada,

Temo-la há muito apodrecida e devorada,

E nós, os ossos, cinza e pó vamos virar.

De nossa desventura ninguém dê risada:

Rogai a Deus que a todos queira nos salvar!

Chamamo-vos irmãos: disso não desdenheis,

Apesar de a justiça a nossa execução

Ter ordenado. Vós, contudo, conheceis

Que nem todos possuem juízo firme e são.

Exculpai-nos – que mortos, mortos nos sabeis –

Com o filho de Maria, a nunca profanada;

A sua graça, para nós, não finde em nada,

No inferno não nos venha o raio despenhar.

Ninguém nos atormente a vida já acabada.

Rogai a Deus que a todos queira nos salvar!

A chuva nos lavou, limpou-nos, percebeis;

O sol nos ressequiu até à negridão;

Pegas, corvos cavaram nossos olhos – eis! –,

Tiraram-nos a barba, a bico e repuxão.

Em tempo algum tranqüilos nos contemplareis:

Para cá, para lá, o vento de virada

A seu talante leva-nos, sem dar pousada;

Mais que o dedal, picam-nos pássaros no ar.

Não queirais pertencer a esta nossa enfiada.

Rogai a Deus que a todos queira nos salvar!

Príncipe bom Jesus, de universal mandar,

Guardai-nos, ou o inferno então nos arrecada:

Lá nada temos a fazer, nada a pagar.

Homens, aqui a zombaria é inadequada:

Rogai a Deus que a todos queira nos salvar!


[1] CARPEAUX, Otto Maria. História da literatura ocidental. Rio de Janeiro, Alhambra, 1985, p. 265.

[2] Idem, p. 266.

[3] VILLON, François. Poemas de François Villon. São Paulo, Art Editora, 1986.