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«Isabel não tinha medo dos mortos»

Avisos de Conteúdo: Morte, Assédio, Violação

Os lugares são marcados pelas pessoas que os habitam. Portanto, são sempre tão distintos ao olhar de cada um de nós. Contudo, vivendo numa aldeia, parece que esse horizonte se esgota, porque tudo é mais próximo e mais linear, sobretudo, quando os valores são reproduzidos em uníssono. E no livro de estreia de Lénia Rufino, passo num lugarejo do Alentejo, em plenos anos 60 [e com uma ponte para o ano de 1992], isso é evidente.

DESENTERRAR FANTASMAS DO PASSADO

O Lugar das Árvores Tristes coloca-nos ao lado da curiosa Isabel, que procura descobrir a verdade sobre um assunto que a vai atormentando. Aparentemente desamparada, porque ninguém pretende esclarecê-la, acabará por desenterrar fantasmas de um passado pautado por mentiras, maldade e um crime hediondo.

«(...) encontrava uma estranha forma de paz nos enterros, 

naquela despedida que deita corpos à terra e memórias ao esquecimento»

A história transparece uma certa simplicidade, porém, inquieta-nos. Há um traço sombrio que nos envolve na obsessão da protagonista, ao ponto de a querermos auxiliar. Além disso, consoante avançamos na leitura, compreendemos que são mais profundas as camadas do seu enredo, até porque não nos mostra só uma perspetiva sobre a morte e rituais de luto: também nos leva a refletir sobre relações familiares e tradições.

«- Há coisas que é melhor serem enterradas com os mortos»

Nesta teia intrigante, há um segredo que pretendem esconder. Mas porque razão? Equilibrando, na perfeição, os detalhes e a ação, a autora mantém-nos neste limbo, acalentando a ambição de desvendar o mistério.

O PODER DA IGREJA

Numa sociedade altamente marcada por uma forte tradição religiosa, senti revolta por uma juventude roubada, pela inércia de quem deveria proteger os seus e pelo aproveitamento de uma posição de poder. Não obstante, é irónica a hipocrisia, o constante apelo à remissão dos pecados, quando o maior pecador se esconde à vista de todos, numa chantagem emocional subtil, mas eficaz. Neste ponto, em quem é que poderemos confiar?

«Não se escolhe a hora a que se morre, a não ser que alguém a escolha por nós»

Quando a voz da Igreja se torna castradora, é difícil não ceder à pressão e ao medo. Porque o julgamento alheio pesa bastante. E porque, em famílias destruídas, parece preferível calar o que se sabe - e que ninguém admite ver - para que as represálias não sejam maiores e se alcance alguma paz - ainda que falaciosa.

A CULPABILIZAÇÃO DA MULHER

Esta obra é um exemplo perfeito de como as vítimas, se forem mulheres, continuam a ser tratadas como culpadas. Expondo um país subjugado - à Igreja e ao poder político do Estado Novo -, os princípios da Mocidade Portuguesa Feminina permanecem enraizados nos pensamentos, nos comportamentos e na educação da sociedade. Portanto, distanciando-se da norma, a Mulher é encarada como a fonte do problema.

«No seu íntimo, sabia que não havia quem a pudesse salvar»

O tempo avança, mas há conceitos que acompanham essa travessia. Há silêncios que nos rasgam o peito. E há demasiados culpados absolvidos. Transportando-me para o meu adorado Alentejo, calcorreei aquelas ruas com o coração ansioso, pesado, a clamar pela justiça que parece tardar. E isso só foi possível pela escrita fantástica da Lénia Rufino e pela forma como estruturou a narrativa, enlaçando-nos a estas vidas cruzadas.

«- Cada um vê as coisas com os olhos da sua própria maldade»

O Lugar das Árvores Tristes desarmou-me, porque é notória a dor, a luta e o renascer. E porque, acima de tudo, consegue mostrar-nos que o amor é o nosso maior impulso, mesmo que implique desafiar o destino.

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