Gustavo Nascimento

Créditos da imagem: Foto do livro “Tree of codes” de Jonathan Safran Foer
O livro Tree of codes de Jonathan Safran Foer foi publicado em 2010 pela editora Visual Arts. Podemos arriscar que foi pensado para ser um objeto estético e que pode ser lido facilmente como uma escultura. Como classificar uma obra assim? Podemos chamá-la de escrita não criativa?
Foer se apropria da tradução americana de Street of crocodiles de Bruno Schulz, recorta, copia e cola escrevendo uma outra narrativa sobre a morte do pai do personagem presente na narratva de Schulz.
Os recortes precisos investem na repetição de trechos ao mesmo tempo em que fazem complementações a eles, oferecendo ao leitor novas perspectivas sobre os acontecimentos. Às vezes, as alterações são mínimas, adiciona-se ou retira-se apenas uma palavra. Essa estratégia se relaciona com a memória do personagem, com sua alternância entre esquecer e lembrar. O corte estratégico e a sobreposição de palavras sugerem a quebra da linearidade (da leitura, do sentido da narrativa) e tornam a experiência do leitor única e intrigante.
Assim, o livro do Foer é interessante para pensar a escrita por meio da perspectiva da leitura, a leitura como ferramenta norteadora do processo criativo. Não é novidade que um dos princípios da escrita não-criativa é a negação da grande quantidade de conteúdos e informações produzidas neste século. A partir disso, algumas escritas conceituais repensam o lugar do leitor e da leitura na obra literária, trocando os papéis do leitor e do autor. Em Tree of codes, Foer trabalha a partir de uma obra já existente, cria a partir do acervo de palavras disponíveis, sem deixar de moldar uma voz própria. Assim, a operação de recorte e cole oferece também um modo de leitura de Foer sobre a vida e a obra do autor de Street of Crocodiles, Bruno Schulz. A memória familiar da alemanhã nazista é lida por Foer e reconstruída através dos silêncios, pausas e principalmente pelo corte. Desse modo, “O original não será mais o mesmo texto: será um novo texto, um segundo texto. Haverá nele apenas parte do texto original.
No seu livro Escrever sem escrever, resultado da sua dissertação de mestrado, Leonardo Villa-Forte expande o conceito de escrita não-criativa cunhado por Kenneth Goldsmith. Essa ampliação é muito importante para pensar a obra de Foer. Contextualizando o surgimento da escrita não criativa nos Estados Unidos, Villa-Forte chama a atenção para o fato de que a proposição de Goldsmith é uma reação à profliferação dos cursos de escrita criativa nas universidades estadunidenses, baseados na originalidade do autor e de sua produção.
Villa-Forte nota no presente um interesse pela recliclagem, pela apropriação de outras obras, como acontece em Tree of codes. O livro de Foer nos faz repensar questões caras à teoria como a criatividade e à originalidade do autor, mas seu caráter pode não ser tão reativo quanto o gesto que motivou Goldsmith a falar de escrita não criativa, já que a apropriação mantém uma relação estreita com a fonte apropriada, como acontece no diálogo que Foer trava com a obra de Schulz.