O que foi a arte romântica? Pergunta complexa que merece ao menos duas respostas.

Primeira: um movimento transcorrido entre o século XVIII e XIX.  Segunda: uma tendência da arte ocidental, encarnada de modo mais expressivo entre os séculos XVIII e XIX, mas presente também em outros períodos.

Essa segunda formulação, não muito convencional (embora cada vez mais aceita e até presente em alguns livros didáticos), ficou famosa no mundo das letras com o texto Romantismo, o nosso contemporâneo[1], do canônico professor Antonio Candido (na verdade é transcrição de uma aula inaugural ministrada por ele na PUC do Rio de Janeiro). Não seria o caso de repetir aqui os argumentos do grande crítico. Limito-me a dizer que para Candido, “nós ainda estamos vivendo algumas obsessões fundamentais do romantismo”. Uma delas, evidente: as mudanças sucessivas, aceleradas e imprevisíveis pelas quais nosso mundo passa cotidianamente: produto direto do espírito romântico, “baseado sobretudo no movimento e na transformação”. A negatividade, o fragmentarismo, a liberdade criativa, tônicas contemporâneas, seriam, entre muitas outras, algumas marcas da perpetuação do espírito romântico entre nós.

Mas se Candido pensa o Romantismo como algo que ultrapassa o século XIX e percorre todo o XX, chegando pelo menos até 1988 (data de seu texto), isto é, se ele amplia o Romantismo para o tempo futuro, o curador Teixeira Coelho, com sua exposição Romantismo: a arte do entusiasmo, em cartaz no MASP desde 05 de fevereiro deste ano, vai ainda mais longe: mostra sinais dessa tendência artística já no Renascimento flamengo de Hieronymus Bosch, isto é, nada menos que há 500 anos. Sob o signo do Romantismo, Teixeira Coelho reúne artistas tão distantes em estilo e época como El Greco, Turner e Matisse.

Palavras do curador:

“Embora essa sensibilidade tenha, na arte, um período central de referência (entre a segunda metade do século XVIII e a primeira do XIX), o Romantismo revela-se uma estrutura profunda do imaginário manifestando-se de modo diverso em diferentes momentos da cultura ocidental. Esta exposição mostra, com o acervo MASP, diferentes presenças do Romantismo, de suas primeiras manifestações a sua marcas contemporâneas.”

Uma proposta ousadíssima. E instigante.

Por contar apenas com obras do acervo do MASP, a exposição também vale como uma advertência severa para os que se esqueceram de nosso museu: ok, o MASP não é nenhum Louvre, Hermitage ou Metropolitan, mas tem algumas das obras mais expressivas da história da arte ocidental, poxa!

Oportunidade para conferir.


[1] in: Suplemento Idéias, Jornal do Brasil, 19.03.1988. (RESUMO DE CLÁUDIO BOJUNGA)