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«Ler é a minha fuga»
A aceitação da identidade literária de cada um deveria ser inata - até porque cada ser humano tem a sua. No entanto, continua a ser um processo em desenvolvimento, porque os preconceitos, as exigências e as comparações tendem a sobrepor-se. E isso, no meu ponto de vista, condiciona o caráter mágico da viagem.
A verdade é que ler aparenta estar na moda. E ainda bem, visto que há uma série de aprendizagens que nos proporciona. E eu fico de coração cheio por ver tantas partilhas sobre livros, sobre histórias que nos acrescentam, sobre personagens que não nos importaríamos de conhecer. Por outro lado, a competição - sobretudo, no digital - parece muito mais evidente, o que potencia comentários desajustados e completamente desnecessários, porque a forma como gerimos as nossas leituras não é um exemplo a ser implementado na dinâmica de cada leitor. Ainda que alguns se possam identificar com o método e com as escolhas, não há verdades absolutas neste departamento. Portanto, é contraproducente embarcar nesta batalha sem sentido.
Consciente ou inconscientemente, todos somos mais reticentes a certos géneros, autores e abordagens. Mas isso não valida o direito de nos considerarmos superiores aos demais ou de afirmarmos - embora de um modo subtil - que as nossas leituras são melhores. Da mesma maneira como eu não me rendi a Elena Ferrante e à sua tetralogia, há quem não encontre em Afonso Cruz, por exemplo, a beleza e criatividade narrativa que tanto destaco. E não existe mal nisso. Muito pelo contrário, é sinal que há interpretações distintas e que cada autor tem o seu público. Além disso, é nesta troca de visões que evoluímos, atendendo a que experienciamos novas sensações e camadas. O que seria da diversidade literária, se caminhassemos todos por uma rota única.
Quando, há uns tempos, criticaram a Elga Fontes [Quem Me Lera] por avançar as partes que considera mais aborrecidas num livro, reforcei uma certeza que se vai alimentando no meu peito: a intolerância, ainda gritante, nesta área artística. Porque clama-se o quanto é benéfico abraçar e potenciar a diferença, mas, depois, quando as pessoas têm comportamentos opostos aos nossos [e que em nada prejudicam terceiros] já é um drama, como se estivessem a cometer algum tipo de ilegalidade. Afinal, em que lado da margem ficamos?
Honestamente, tenho pouca paciência - para não referir nenhuma - para estas guerras sem nexo e que não enaltecem a literatura. Porque sinto que retiram o foco do que é importante. Em simultâneo, creio que seria muito mais interessante promover autores, histórias e hábitos que nos inspiram, sem os impormos, em vez de criticarmos as escolhas dos outros. Assim, evitávamos esta mania obsoleta de darmos voz a barbaridades.
A MINHA LEITURA É MELHOR QUE A TUA
E OUTRAS BARBARIDADES
No mês anterior, deixei uma pergunta nas histórias do Instagram do blogue, para saber que barbaridades já tinham recebido/lido sobre literatura e os vossos hábitos de leitura. Tanto por uma questão de curiosidade, como por uma necessidade de aprofundar melhor este tema que me vai inquietando. Eis o resultado.

Os Clássicos pertencem a esta designação por um motivo. Contudo, respeitando que possam ser obras primas, isso não implica que se tornem os livros da nossa vida. Nem têm de o ser, porque tudo depende do gosto de cada um. E se um leitor não tiver curiosidade em ler os clássicos, porque é que se iria pressionar a fazê-lo? Pelo mesmo princípio, alguém que adore lê-los não tem de se privar dessa partilha. Simples assim.

Creio que já era tempo de pararmos de associar talento/qualidade à idade do autor. Porque não é por ser jovem ou por não ter uma carreira longa que é menos interessante. Efetivamente, encontraremos novas vozes que não nos surpreenderão, mas isso não se prende com a idade. Uma vez mais, é uma questão de gosto.

Perdoem-me o ceticismo, mas não acredito nesta história do «lês demasiado» ou, por oposição, do «lês pouco». Em termos concretos, em que é que isso se traduz? Em nada! Cada um lê o que pode/consegue. E não tem de ser objeto de crítica por causa disso. Pessoalmente, há meses em que leio bastante, porque tenho disponibilidade para tal, e outros em que leio menos. Mas isso vale o que vale, é apenas uma estatística, uma curiosidade. Não é uma régua que mede o tipo de leitor que podemos ser. E muito menos dita qualidade.

Ver ciclismo também me dá sono, por isso, tenho bom remédio: não vejo e não incomodo quem gosta. O mesmo se aplica à leitura. É perfeitamente válido que alguém não se interesse por livros, mas acho desnecessário que se façam estas observações, como se fosse incrível pôr em causa preferências alheias.

Se me cansasse, não lia. Se continuo, é porque significa algo para mim. Portanto, creio que esta pergunta se responde a ela própria - e talvez seja das que mais me irrita, pela estupidez e pelo controlo que transparece.

Ler não é uma prática exclusiva do ambiente educativo. Mas se, nas férias, alguém quisesse apostar na sua formação e dedicar-se a leituras técnicas, não deveria ser incomodado com estes comentários. Novamente, é uma escolha. Há quem retire prazer da leitura, há quem se aborreça. São duas partes aceitáveis da moeda.

Ou lês muito devagar. Seja como for, cada leitor tem o seu ritmo e não merece menos consideração só porque avança num compasso diferente do nosso. Relembro, porque acho importante: isto não é uma competição.

Os livros existem para serem vividos. Há leitores que os querem imaculados e estão no seu direito - e eu até acabo por me inserir mais neste grupo -, mas há quem eleve a sua experiência de leitura, se for anotando no livro, se dobrar os cantos da página, se sublinhar as passagens mais marcantes. E isso é excelente.
Os preconceitos literários multiplicam-se. E, com isso, perdemos todos. Porque continuamos a contribuir para que a literatura se perca no meio de futilidades, enclausurando-a numa caixa, quando, na realidade, é muito mais encantador se existirem vozes distintas que, pela sua abordagem singular, abram novas janelas.
