Paisagem 2004, por Aldemir Martins (reprodução WikiArt)
Nestes dois poemas, a autora de Vera Ballroom passeia por suas referências literárias e coloca à luz do tempo presente clássicos da literatura
Cleo Vaz*, Especial para Fina
A Garçonnière
Procurei por S.P.
a garçonnière do Oswald
no centro nervoso, em sua coluna vertebral.
Deveria ser o 67 da R. Líbero Badaró –
sumira
carregando penas e faisões
em mãos enegrecidas pela fuligem da cidade enlutada.
Taxista e jornaleiro,
eles comportam toda a cidade,
diziam ser o prédio do sr. Venturini.
A louca vizinha jurava ouvir sons vindos do terceiro andar –
mas a sua palavra jamais contou.
Onde o Oswald, a Miss Cyclope, o Monteiro Lobato e o Del Picchia?
Rodo com o motorista,
estamos na casa dos 400 – me choco com o prédio.
Ele é cinza, baixo, mais poderoso do que os arranha-céus –
rimas e escansões perfeitas.
Os fantasmas modernistas e emplumados são também
Os Perfeitos Cozinheiros das Almas deste Mundo.
ONDE ESTIVESTES DE NOITE, GULLAR
É de madrugada
ligo para os amigos.
Perscruto o telefone.
Acordo o homem, o poeta
– eu preciso saber das nossas vidas.
Clarice, gosto de ouvir este sopro.
Gullar, você leu A campânula de vidro da Sylvia Plath?
A tabela periódica, de 100 elementos esquisitos, transforma as lindas
palavras – ouro, prata e cobalto e alumínio
em símbolos com decimais ao lado.
Você e ela sentem o mesmo a respeito dos metais
– são animados.
Tenho fome de comunhão
estamos todos tristes.
É assim.
Os gatos rondam o beco fétido
a noite é pesada
a madrugada parece pacífica, mas uma besta avança…
Será o cavalo selvagem, perto do coração
cavalgando no nosso corpo inteiro?
Vamos fazer uma viagem fora do tempo… uma ausência.
Tudo arde na mesma fogueira
fogo, febre, fumaça enegrecida
chama rubra, carne calcinada
versos profanos, amor feiticeiro.
Tudo no centro da imensa fogueira.
Onde, o que não está mais conosco?
