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Dez10

Maria do Rosário Pedreira

Há uns anos, o escritor irlandês William Trevor teve um livro na shortlist do Booker Prize (que não ganhou) – romance belo e muito triste chamado, despretensiosamente, A História de Lucy Gault. Passava-se nos anos 1920, no seio de uma família que sofria constantes agressões pelo facto de o seu patriarca irlandês se ter casado com... uma inglesa. Na sequência de uma tentativa frustrada de lhe incendiarem a casa, decide, pois, o capitão Gault afastar-se com a mulher e a filha para um lugar onde possam, enfim, viver em paz e segurança. Desconhece, porém, que Lucy – a filha de nove anos apenas – não os acompanhará: a sua casa é o seu pequeno mundo e tomou a decisão de não a abandonar. Esta tomada de posição, que arrasta consigo um acontecimento inesperado (a sua suposta morte), mudará para sempre as vidas dela e dos pais, vidas que acompanharemos ao longo dos anos e das páginas e que, evidentemente, nunca mais serão as mesmas. Contada como só um irlandês sabe fazer, esta narrativa chega a ser pungente, mas é paradigmática na forma como nos quer dizer que um pequeno acaso pode mudar tudo.