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| Fotografia da minha autoria |
«Passaram-se sete meses sobre o brutal assassinato de Angela»
O meu compromisso de priorizar mais a sétima arte tem-se manifestado em passos subtis, quase como se fossem um novelo de lã a desenrolar-se com cuidado. Mas entre o AXN e o AXN Movies, encontrei dois aliados de peso: não só para estabilizar este período conturbado, mas também para motivar a minha jornada, descobrindo argumentos surpreendentes.
Em 2018, quando partilhei os sete filmes que pretendia ver até ao final do ano, Três Cartazes à Beira da Estrada figurava no topo das minhas preferências. Mas fui adiando o momento. Até que, finalmente, permiti que a sua história me desarmasse. Inspirado na realidade de Marianne Asher-Chapmam [artigo DN], acompanhamos a luta de uma mãe em desespero, que decidiu, em nome próprio, desafiar as autoridades locais a resolverem o homicídio da sua filha, uma vez que parecem pouco predispostas a continuar a averiguar quem é, efetivamente, o culpado. Esta aparente inércia, aliada a toda a revolta e frustração sentimental, é o gatilho incendiário que colocará a comunidade local em alvoroço. Porque Mildred, a nossa protagonista, não tem mais a perder e, por essa razão, utiliza as armas todas de que dispõe. Por consequência, tem a ideia genial de recorrer a outdoors para manter o crime em primeiro plano, até porque só ambiciona que se faça justiça.
Emocionalmente dicotómico, mistura drama e comédia. E inquieta-nos, pois mostra o peso das relações disfuncionais, da incompetência, da desigualdade [sobretudo, racial e de género] e do abuso de poder. Além disso, leva-nos a caminhar ao lado do preconceito, da hipocrisia da igreja, da doença [alcoolismo e cancro] e da propagação de ódio, que é gritante, ao ponto de toldar o caráter dos intervenientes. Mas é, também, uma prova de redenção, de libertação e da necessidade de fazer as pazes com o passado. Porque nem sempre conhecemos o suficiente das pessoas para compreendermos as suas motivações. E, por vezes, a mágoa e as feridas são tão grandes e avassaladoras, que não as gerimos de uma forma pacífica, abraçando a escuridão que se abate sobre o peito. E os comportamentos erráticos multiplicam-se, marcando um padrão.
A atitude de Mildred foi ousada, provocando uma onda de violência. E é interessante como uma figura consegue virar a dinâmica de um lugar do avesso. Em simultâneo, alerta-nos para o quanto estamos dispostos a ultrapassar todos os limites, apenas para obtermos respostas. Portanto, há questões morais dúbias, não nos sendo possível julgar o outro através da nossa lente. E um dos aspetos que mais me fascinou neste filme, para além da temática em si, foi a transversal carga humana, pois todas as personagens apresentam «áreas de sombra», conferindo bastante credibilidade ao enredo. Às ações. E aos diálogos. Num clima de hostilidade notório, compreendemos que todos, sem exceção, partilham um objetivo comum: atribuir sentido à sua vida.
Três Cartazes à Beira da Estrada foca-se nas consequências de um crime horrendo, mas também nas ligações interpessoais - e no quanto nos desarrumam por dentro. Assistindo a uma mudança, há uma paz de espírito que renasce. E, afinal, talvez existam histórias que não precisem de um fim fechado para que o ceticismo dê lugar à compaixão.
