Se as luzes se apagassem hoje, e as ruas ficassem escuras, continuaria a ser natal?
Porque festejamos algo que nem sabemos que existiu? Porque se vende uma imagem de um pai natal que cruza os céus de todo o mundo, quando há crianças que neste momento morrem de fome? É natal... mas só para alguns.
Nós que sortudos somos. Temos casa e comida na mesa. Andamos atarefados a comprar presentes, buzinamos nas longas filas da cidade. As luzes aqui estão acesas e iluminam a noite refletindo as gotas de chuva que caem. Está frio, mas é normal aqui porque é natal. Camisolas, casacos, gorro e cachecol e, ao nosso lado, ali bem no chão, junto ao banco de um jardim, um homem dorme em cima de um cartão. Aproveita algum do calor que sobe pela ventilação do metro. Mas nem abrimos a janela do carro, porque está frio quando é natal.
A música toca no rádio e as notícias chateiam quando bate a hora certa. Mudamos o posto para não ouvirmos falar de guerra, nem de mais ataques. Procuramos uma nova emissora e o rádio continuar a tocar... uma música que conhecemos, cantamos, porque é assim, são sempre as mesmas cantigas de natal.
Elsa Filipe