Indignaram-se alguns leitores deste blogue por eu não ter vindo a correr participar e lamentar a morte do escritor António Lobo Antunes na quinta-feira passada. Chegaram mesmo a acusar-me de «ostracismo» em relação a Lobo Antunes, como se me conhecessem. Caramba... Como dizia a minha avó, «um julgador por si se julga». Pois hoje queria, em primeiro lugar, dizer que um blogue não é um jornal diário e por isso não tem de dar notícias em cima da hora. Depois, eu não me encontro sempre diante do computador, e por acaso até estive bastante ocupada de manhã à noite nessa quinta-feira, fui ao hospital ver a minha mãe (que teve alta na sexta), fui a Setúbal a uma sessão com Itamar Vieira Junior na Livraria Culsete (e apanhámos imenso frio), jantámos tarde e cheguei a casa quase à meia-noite. E, além disso, não escrevo por escrever, e não diria decerto da obra de Lobo Antunes nada que não se saiba já ou que outros não digam bem melhor do que eu. Também não sou do género de vir aqui mostrar o livro autografado pelo génio, até porque raramente peço autógrafos. Mas, pronto, para contar se calhar uma história pouco conhecida sobre o eterno candidato português ao Nobel, esclareço que os seus dois primeiros livros (Memória de Elefante e Os Cus de Judas) saíram quando eu andava no segundo ano da faculdade e foram realmente uma bomba, nunca se tinha lido nada assim. Só que uma obra que, com o tempo, se tornou incontornável foi vista nessa altura por alguns professores de Letras como algo pretensamente moderninho e sem grandes qualidades, e lembro-me especialmente de um professor nos dizer «Credo, não leiam  isso»... Para mim, era estranho, claro, porque eu estava a adorar (ainda me lembro de, no primeiro livro, o escritor classificar as mulheres de acordo com a marca de cigarros que fumavam e de eu achar isso muito giro, se bem que as feministas radicais de hoje devam detestar), e valeu-nos a respeitadíssima professora Maria Alzira Seixo caminhar no sentido contrário aos seus colegas para nos tirar de cima o peso de acharmos que em termos literários éramos uns nabos e gostávamos do que não prestava. Depois desses dois livros que mencionei houve mais uns trinta, ficam cá para serem lidos, claro. E isso é que importa. Ostracismo? Se querem um blogue de notícias frescas ou selfies com os mortos, vão a outro lado.