E ainda hoje o pastor acredita que o inverno se havia aninhado dentro daquele corpo, pois todas as vezes que lhe mudava as fraldas ela gemia como as árvores nuas no seio do temporal. A carne foi-lhe murchando, as feridas tinham olhos de sangue vivo, cada vez mais vivo. Aquelas crostas gulosas de dores, semelhantes ao nascer brusco de uma tempestade, foram-lhe mastigando o tecido que arrecadava os ossos e as artroses foram-lhe estrangulando a memória aos bocados, as palavras por inteiro. E o pastor cuidava dela como cuidava das ovelhas, com todo o zelo e empenho que sobrava ao cansaço.
Mea Culpa, de Carla Pais, Porto Editora, 2017.
