Por meio de suas personagens socialmente desajustadas, Faulkner expõe seu lado crítico, e se opõe às opressões sulistas que imperam em seu tempo histórico. Giovana Proença Com Luz em agosto (1932), romance reeditado pela Companhia das Letras, o norte-americano William Faulkner não revolucionou a linguagem, como nos moldes de outros trabalhos como O som e a fúria (1929) e Absalão, Absalão (1936). Contudo, há uma inovação latente própria do autor, Prêmio Nobel de Literatura de 1949. Harold Bloom, notório crítico literário da América, afirma preferir Luz em agosto a outras obras de Faulkner, que considera esquematizadas demais. Assim como livros canonizados do autor, o romance expressa as contradições de um Sul marcado pela Guerra Civil e pela herança escravocrata, profundamente arraigado em tradições de sua atmosfera cultural e que resiste à modernidade em avanço nos Estados Unidos. O enredo entrelaça as histórias de Lena Grove, jovem grávida que parte em odisseia pelo vasto Sul atrás do pai da criança, com quem ainda não é casada, e de Joe Christimas, órfão que se vê dividido quanto a sua identidade, dilema intensificado pela rigidez das marcações raciais da região. Por um erro na língua dos habitantes da cidade, Burch – o homem procurado por Lena – torna-se Bunch, companheiro de trabalho de Christimas. A partir desse engano, Faulkner compõe uma rede de conexões. A trama em Luz em agosto evoca o significado primário do termo. No romance, as personagens funcionam como fios condutores do conjunto da obra, surpreendentemente bem fechada. Afinal, a maestria de Faulkner não permite pontas soltas. O escritor norte-americano é comumente considerado dentro do Gótico Sulista ou Grotesco Sulista. Essa tradição literária é conhecida por permitir a expressão de inquietações sociais, frequentemente reprimidas. Por meio de suas personagens socialmente desajustadas, Faulkner expõe seu lado crítico, e se opõe às opressões sulistas que imperam em seu tempo histórico. Lena e Christimas sintetizam, respectivamente, as adversidades causadas pelo patriarcado e pela hegemonia branca. Em meio aos rastros ainda pulsantes da Guerra da Secessão e do racismo, William Faulkner se coloca no panteão de escritores brancos, junto de suas discípulas, Carson McCullers e Flannery O’ Connor, que denunciam o lado atrasado dos Estados Unidos. Essa resistência em se arraigar no “Velho Sul” se choca com o irrompimento da modernidade e de novos modos de vida. Assim, temos como resultado a violência e a brutalidade que perpassam o romance, símbolos da tensão entre dois modos distintos de organização social, obrigados a conviver mutualmente. O romance é construído para transfigurar a alienação que ronda essas personagens, uma vez que a comunhão da comunidade, essencialmente dividida, parece impossível. Faulkner entrega um romance polifônico, que por meio de múltiplas vozes oferece um vislumbre das contradições de um Sul profundo. A minúcia da técnica é precisa para registrar uma trama de múltiplos temas complexos como o racismo, a violência, a religiosidade, o patriarcalismo, e, acima de tudo, as paixões obsessivas. Luz em agosto segue a tendência do autor, um dos grandes nomes do regionalismo norte-americano, em entrelaçar o realismo próprio dos problemas de sua região com o Modernismo, expresso nas inovações formais. Faulkner emprega o tom áspero de denúncia realista, combinando-o à exploração da interioridade das personagens, por meio do fluxo de consciência próximo de artificies de James Joyce. O resultado é essencialmente poético, em uma belíssima linguagem, bem transfigurada aos leitores brasileiros na tradução de Celso Mauro Paciornik. A demanda de Faulkner por captar as tensões próprias de seu tempo histórico revela uma região tensionada na crença na família patriarcal, na hegemonia branca e na religiosidade cristã, entretanto, abalada bruscamente pela modernidade. O romance evoca, assim, uma frase do saudoso Alfredo Bosi, crítico literário brasileiro que nos deixou em 2021, “Novas configurações históricas exigem novas experiências artísticas”. Nisso, Faulkner era mestre. Publicado por Giovana Proença Taubateana de 2000. É pesquisadora na área de Teoria Literária na USP. Tem textos sobre livros e literatura publicados em jornais como Rascunho, Estado de Minas e O Estado de S. Paulo Ver todos os posts de Giovana Proença