O Último Minuto na Vida de S. | Miguel Real

Snu enche toda a capa, de blusa branca, olhar em frente, semblante neutro, mais atrás, em segundo plano, está Sá Carneiro de fato e gravata, a imagem pública que nos deixou. O cinzentismo português de quem tem responsabilidade de Estado. O leitor fica a saber a quem pertence o “S”.

Nas palavras de Snu, mulher vinda dos países do norte da Europa, desfila Portugal no seu multicolorido legado étnico, de traços fisionómicos marcadamente berbere, culturalmente atrasado, acriticamente obediente quando deve ser responsável e crente onde deve confiar no conhecimento. Uma ligeira ironia liga emocionalmente esta mulher a esse povo, não é com desprezo que o encara, mas com o forte desejo de agitar as águas e tornar real a parte possível da ilusão. O distanciamento da narradora segue o tom pícaro da ironia culta que fez escola na literatura portuguesa. Apesar do recurso ao escárnio, como quando descreve o capelão como uma barrica de gordura ou o oficial superior de tronquinho rechonchudo e barriga de grão e feijão ostentada, não é um retrato de menoridade que encontramos, isso não faria justiça à memória de Snu. O retrato estereotipado dos nossos conterrâneos, muito para além da rudeza com que descreve o aspeto físico, acentua o retrato social, psicológico e político de um povo obediente, temente da autoridade e caninamente fiel às suas elites. Só um olhar educado fora de Portugal o consegue caraterizar com total distanciamento.

Snu sonhava com uma democracia plena, sem a tutela militar do Conselho da Revolução, uma excrescência do Estado Novo, agora vestida de cariz revolucionário, porque tudo em Portugal passara a ser revolucionário. Nessa visão, estava em plena sintonia com Sá Carneiro.

Num minuto ficamos a conhecer Snu, o casamento que se dissipa entre as sombras da vida comum, o projeto editorial e os conflitos com a censura –valeu-lhe o prestígio da família do marido e a sua rede de conhecimentos – e a aproximação a Sá Carneiro, nascida de um encontro na editora. Foi um amor só possível na idade madura, e quem o encontra percebe não voltar a viver outro igual.

Tudo se consumiu em fogo, o destino medieval que a europa do sul reserva aos audazes, aos que em vida sendo fogo, ao fogo deviam ser poupados. Impossível não nos enamorarmos deste livro.

encontrei o homem definitivo … arrisca a sua vontade sem a garantia de vitória…

sobre o livro      Justiça com A