(Des)orientar-se
Geografia, Cartografia, Ideologia, Decolonialidade, Representação espacial
Iluatração de Ligia Zilbersztejn Orientar-se e localizar-se são condições para a compreensão do espaço vivido. É de se esperar que as pessoas se sintam inseguras quando incapazes de seguir o caminho correto para chegar onde desejam Gustavo Nagib É doutor em geografia humana pela USP e poeta. Autor de “Agricultura Urbana como Ativismo na Cidade de São Paulo” (Annablume, 2018), entre outros. No Hemisfério Sul, nos empolgamos ao cruzar o Trópico de Capricórnio, identificamos a Lua crescente pelo seu formato de letra “C” e nas estradas estreladas procuramos pelo Cruzeiro do Sul. Desde pequenos algumas imagens estranhas se constroem na nossa cabeça. Por exemplo, que tem a parte de cima e a parte de baixo da Terra (sempre tem alguém que está por cima!). As representações da superfície terrestre e as propostas de divisão do mundo são essencialmente ideológicas, e nós continuamos presos a uma imposição colonialista, imperialista e autoritária de como o mundo deve ser percebido, representado e analisado. Durante a Guerra Fria, popularizou-se a divisão entre os “mundos”. Nós seríamos pertencentes ao Terceiro Mundo, o último deles. Teve, ainda, a separação entre “países desenvolvidos” e “países subdesenvolvidos”. A revisão desta última terminologia viria a substituí-la por “países em desenvolvimento”. Mais recentemente, inventaram os “emergentes”, que seriam os países em desenvolvimento, porém industrializados. Os mais críticos costumavam preferir as designações “centro” e “periferia”. E, enfim, a predileção atual: “Global North” e “Global South“. Joaquín Torres García Felizmente, existem as alternativas criativas à ideologia dominante. A obra “América invertida”, do uruguaio Joaquín Torres García (1874-1949), tornou-se emblemática para o ensino da Geografia na América do Sul. Ou, então, a ironia e a genialidade de Quino (1932-2020), que apresentou uma Mafalda assustada ao observar a Argentina no globo terrestre: estaríamos de “cabeça para baixo”?! Orientar-se e localizar-se são condições para a compreensão do espaço vivido. É de se esperar que as pessoas se sintam inseguras quando incapazes de seguir o caminho correto para chegar onde desejam. No entanto, nos tornamos ainda mais inseguros quando somos colocados arbitrariamente na parte de baixo do mundo, ou quando representados na parte menos desejada do mundo, no último dos mundos. Se é assim que nos enxergamos desde que fomos apresentados à maioria dos mapas-múndi, está na hora de nos desorientarmos para que, em seguida, possamos nos reorientar como protagonistas de nossa própria cartografia.
Texto originalmente publicado em Revista Fina