«Os Portugueses não querem nada que não possam meter no bolso.
Como é que esta gente descobriu tanto mundo?» [p:24]
No Meu Peito Não Cabem Pássaros tem uma abordagem particular, até pela própria escolha dos protagonistas, que são três personalidades sensíveis e inteligentes do panorama literário. Ainda assim, para quem não estiver familiarizado com as suas biografias, poderá não reconhecer essa simbiose, mas não considero que interfira com a compreensão da mensagem, até porque a sua pertinência ultrapassa as figuras centrais do enredo. Deste modo, podiam, perfeitamente, ser homens anónimos, que continuaríamos a sentir o que os inquieta. No entanto, não posso deixar de alertar para dois aspetos: 1) a sinopse pode induzir-nos um pouco em erro; 2) é uma leitura que requer mais concentração, implicando, em simultâneo, a predisposição mental certa.
«Viver num sítio é ser esse sítio, emprestar-lhe uma alma e receber outra em troca. As biografias deviam ordenar-se por lugares, e não
por datas. Nesta rua fui assim, num outra fui diverso. Ninguém sabe descrever uma cidade, são as cidades que nos escrevem a nós» [p:31]
O que mais me fascinou neste romance foi o facto de nos levar a refletir sobre as linhas que aproximam pessoas tão distintas - geografica e emocionalmente. Além disso, tendo em conta que as suas vidas nunca se cruzaram, é interessante perceber como evoluíram em fragmentos tão similares, provocando quase uma catarse tripla. Embora funcionem como narradores isolados, partilham o sentimento de inconformidade, a solidão, as dúvidas, o sofrimento e o pouco receio em demonstrar que nem sempre estamos seguros das nossas decisões e propósitos, e que as hesitações fazem parte do processo. Com um traço filosófico e algo abstrato, é um livro com vários mundos por dentro.
«Se estamos hoje no caminho do que fomos para o que haveremos de
ser, é porque o mundo é feito de linhas, e não de pontos» [p:56]
O autor encoraja-nos a decifrar o íntimo de cada uma das personagens, misturando realidade e imaginação. Priorizando momentos de reflexões profundas, a escrita é um refúgio comum, colocando-nos em confronto com a inocência da infância, o pecado, o desejo de partir, a ilegalidade, a morte, as limitações, os sonhos, as privações e a fé. Sendo a obra de estreia de Nuno Camarneiro, é natural que algumas arestas necessitem de ser limadas, mas enriquece o nosso imaginário. E, sobretudo, partindo de capítulos curtos, com vozes alternadas, permite-nos compreender que as entrelinhas são sempre fundamentais.
«Afinal eram as estrelas que já não nos serviam ou
nós que já não servíamos as estrelas?» [p:156]
No Meu Peito Não Cabem Pássaros tem uma prosa poética surpreendente, que merece ser lida devagar, para absorver cada detalhe. Reinventando o mundo como o conhecemos, foca-se nos caminhos que percorremos, nas histórias - vividas e inventadas - e nas cicatrizes que nos identificam. A transbordar de sabedoria nas palavras, demonstra que há vínculos que nos unem, independentemente de tudo - até da distância.
«Todas as cicatrizes são troféus, representam vitórias contra o que nos vem de fora. Devíamos mostrá-las de cada vez que conhecemos alguém, chamo-me assim e tenho sobrevivido» [p:184]
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