03

Jun22

Maria do Rosário Pedreira

(Para a semana estou de férias, o blogue só volta dia 14.)

Dani sempre quis acreditar que a mãe estava predestinada para voos mais altos, como mãe e como mulher. Que, se o pai não tivesse morrido, ela se teria transformado no suprassumo da nova mulher trabalhadora dos anos noventa, gerindo a casa e um negócio próprio, com todas as ideias que tinha de design de moda infantil que a avó costuraria. Pouco depois de Dani nascer, ela falava em estudar modelagem e moda. Mas o entusiasmo, a alegria e toda a doçura que sabia transmitir através das canções que inventava, das histórias infantis à hora de dormir, de tudo o que contava sobre tesouros, bosques, fadas, monstros bons e solitários, ficou paralisado com a doença do marido. Como se tudo tivesse ficado fossilizado no interior de um rochedo duro, juntamente com os seus jogos de sedução, as suas pestanas compridas, a elegância das maçãs do rosto e as feições delicadas. Uma mulher jovem completamente encerrada no interior de um rochedo e tingida de preto, de um preto fúnebre. O preto podia ter sido sofisticado e mágico, mas ela ainda hoje anda toda manchada de receios. Entrou para a igreja do bairro de uma forma excessiva e encheu os seus dias de catequese, velas e círios pascais. Decidiu deixar a vida feliz para outro mundo, já que assim tinha a certeza de que estar bem não dependia dela.

Marta Orriols, Doce Introdução ao Caos, tradução do catalão de Maria João Teixeira Moreno