Todo ser humano busca um propósito, uma razão pra continuar existindo e fazer as coisas todo dia exatamente igual. No entanto, nem sempre as coisas saem como planejado. Aliás, é muito mais comum que não saiam e o roteiro da existência assuma um rumo não apenas pouco esperado como completamente tedioso. Nestes casos, passamos a catar em pequenas coisas os prazeres que sustentam a nossa sanidade. Uns saem pra uma festa, outros enchem a cara, fazem uma fezinha em um jogo de azar. Moss, personagem de “Onde os Velhos não têm vez”, prefere caçar.

Juntar o equipamento, gastar boas horas no meio do nada, sozinho, perder tempo perseguindo a presa perfeita, esperar pacientemente o momento certo para efetuar o disparo. Veterano da Guerra do Vietnã, tenta matar o tempo e encontrar respiro no sufoco da existência enquanto atira em alguns animais selvagens.

A realidade na qual ele vive é árida como um bom enredo de faroeste. Não há amenizações no clima, no lugar – um deserto – e nem na linguagem. Este é um livro seco e objetivo. O seu autor, Cormac McCarthy, optou pelo uso controlado de vírgulas, pelas frases curtas e total ausência de pontuações dispensáveis, como travessões. O resultado é um texto que transmite na sua leitura o que encontramos na construção deste mundo e destes personagens.

Onde os Fracos Não Têm Vez - Papo de Cinema

Apesar de ser um thriller, com uma triangulação bandido e mocinho, não é uma história onde podemos esperar tranquilamente o triunfo do bem sobre o mal. A vida não é maniqueísta e também não o é a prosa de McCarthy.

Quando Moss persegue uma presa que escapa ao seu tiro, encontra carros abandonados. Marcas de tiro, corpos, quase mortos, sangue, dinheiro… Um bom autor sempre comunica nos detalhes e o modo como o personagem movimenta-se tranquilamente neste cenário de caos é uma carta aberta sobre sua técnica e seu passado de ex-combatente.

Ele não tem nada a ver com essa briga e com esse caos, mas encontrou muito dinheiro. Deixa tudo como está, não ajuda os quase mortos, não move uma palha… só pega o dinheiro e sai dali.

Quando chega em casa, sabemos da sua vida, da sua esposa e da sua realidade amarga. O competente veterano do Vietnã vive em um trailer pobre. Guarda a maleta de dinheiro e resolve voltar pra verificar o local mais uma vez.

O leitor mais cético vai ficar incomodado neste ponto e perguntar-se qual o motivo do retorno. Ele tinha o dinheiro e, aparentemente, ninguém saberia da sua presença. O quase morto estava justamente quase morto. Mas os humanos são mesmo tão caóticos quanto a própria vida. Ele retorna na ânsia curiosa e na culpa por ter deixado um homem morrendo com sede. Agora, contudo, a tranquilidade desapareceu. Como na guerra, os eventos de surpresa são sempre mais tranquilos que os planejados. O coração parece que vai saltar pela boca, resta uma sensação terrível de morte.

Claro que, como numa boa história de crimes, agora ele deixa um rastro precioso que servirá para que os seus inimigos o encontrem. Mais tarde descobrirá ele que vai além disso, quando percebe que na mala cheia de dinheiro há um rastreador… claro que há! Quem deixaria milhões de dólares, em dinheiro, sem no mínimo um rastreador?

Volta pra casa apressado, orienta a fuga da mulher e segue outro rumo. Na sua cola, um assassino perigoso, um psicopata que conhecemos logo na primeira página, antes mesmo de conhecer nosso veterano do Vietnã. E na cola do assassino um Xerife prestes a aposentar-se e orgulhoso de sempre ter cumprido com honra o seu trabalho.

Este é o cenário inicial, a preparação para este livro de 2005, que conquistou leitores e rendeu uma das mais sensacionais adaptações literárias do cinema. Um filme que no Brasil recebeu o nome de “Onde os FRACOS não têm vez”.

O enredo gira em torno de três personagens, Moss, esse cara que achou uma mala cheia de dinheiro; Chigurh, o psicopata assassino contratado para recuperar o dinheiro; e Tom Bell, o Xerife do condado onde tudo acontece e que inicia uma jornada de perseguição ao assassino.

Neste livro encontramos tudo que esse tipo de história tem direito. Perseguições, momentos de tensão onde um personagem observa o movimento do outro, violência crua, e bandidos sagazes que estão sempre à frente das autoridades.

Pela natureza dinâmica do texto, tudo acontece de forma muito fluida, sem solilóquios, sem reflexões profundas. Tudo que importa é dito majoritariamente nos gestos e atos dos personagens.

Por conta disso, o leitor pode até acreditar que esta é uma daquelas leituras que só servem mesmo para passar o tempo. Interessante, empolgante, capaz de prender nossa atenção a cada página, mas só passatempo. Um engano tão brutal quanto o enredo do livro.

McCarthy é um dos grandes escritores de nosso tempo. Ele consegue aliar a dinâmica voraz de uma narrativa pujante e fortemente comercial com toques eruditos de profundo simbolismo.

Particularmente, é o tipo de autor que eu gosto, que vibro a cada obra porque é assim que acredito que tenha de ser a literatura de nosso tempo. Um texto vibrante, forte, nada tedioso e ao mesmo tempo carregado de significado. Uma história que atende quem procura uma leitura despojada e descomprometida, mas que entrega como bônus uma profunda reflexão sobre a existência.

Moss é um ex-combatente que tenta encontrar o seu lugar. Um homem cheio de qualidades mas que, como tantos de nós, recebe a punição por não ter usado seu talento para progresso próprio. Mora em um trailer, uma moradia de baixa qualidade, quase desumana. O Xerife viveu uma vida em busca de fazer a coisa certa e chega perto da aposentadoria com um gosto amargo de quem viu a vida passar diante de seus olhos. São dois extremos. O jovem Moss que tem um caminho pela frente e o Xerife que já viu seu caminho ser deixado pra trás.

Entre eles, Chigurh. Um psicopata frio e calculista, capaz de tirar vidas num piscar de olhos e decidir existências jogando uma moeda pra cima. Ele personifica o mal que a todos toca e é capaz de interromper planos e destruir sonhos. Chigurh é implacável e voraz. Ele não movimenta-se por nada externo, o dinheiro não pode comprá-lo, a piedade pra ele não existe. Ele é a força destruidora que a todos toca sem escolher suas vítimas.

Jó, na Bíblia, é um personagem extremamente devoto e temente a Deus. No entanto, a desgraça cai sobre sua cabeça e ele perde tudo. O próprio mal o toca, retira tudo que ele tem. No livro de Jó não há um roteiro belo e primoroso da existência, por mais que seu protagonista faça tudo certo, por mais que siga as regras e nunca desrespeite as vontades de seu Senhor.

Na vida, vivemos sempre esta expectativa de nada dar certo e, apesar disso, estamos sempre confiantes de que nossos desejos hão de tornar-se realidade. Por mais desgraçada que seja sua vida, sempre haverá de existir um fio de esperança de que o amanhã seja melhor, que seus sonhos sejam alcançados. Uma faculdade, um trabalho, uma namorada, família, filhos.

No entanto, nem sempre é assim. A grande realidade é que ninguém é protagonista de nada, diferente do que ficam repetindo exaustivamente na mídia e até na educação. Você não será uma estrela e há grande chances de ser apenas mais um. Acontece, é o normal. Além disso, há ainda uma chance de sequer chegar a isso. De sua trajetória ser interrompida por problemas de qualquer ordem.

Isso pode acontecer por conta de uma maleta cheia de dinheiro e um psicopata na sua cola; mas pode acontecer também porque simplesmente precisou viver e agora você está velho, constatando que o tempo passou, é tarde.

Mas o simbolismo não se encerra aí.

Enquanto os bons sujeitos, Moss e o Xerife Bell amargam vidas miseráveis, Chigurh desfruta a existência fazendo exatamente aquilo para o qual foi designado. Enquanto a competência de Moss é pra ele um fardo que o coloca em maus lençóis e a do Xerife é um peso da frustração, a do psicopata é um júbilo que entra em ação a cada nova vida retirada.

Ele é o próprio destino encarnado. Não reflete ou formula, executa. Ele não procura o dinheiro, o poder ou o status. Não faz questão de ser reconhecido. Ele só quer satisfazer seu impulso: fazer o que precisa ser feito, executar. Ele é imparável, inalcançável. Um personagem igualmente frio é contratado para capturá-lo e o resultado é o fim do eventual vilão. Não por incompetência do contratado, mas pela competência de Chigurh, o psicopata.

No final, quando ele devolve a maleta cheia de dinheiro, é questionado sobre isso. Sobre o porquê de devolver mesmo quando teve sua vida rifada pelo dono. Por que era o que precisava ser feito… Ele é uma ferramenta do destino, é o próprio mal.

O fracasso de Moss e do Xerife é refletido com ar sombrio no sucesso daquele que era e é o vilão da história. Um jogo de contrastes frio e desenganado de uma narrativa igualmente sem perspectiva de sucesso. Os que esperam um final apoteótico podem sair frustrados, os que já entendem a dinâmica da vida e percebem as intenções declaradas logo nas primeiras páginas devem vibrar de satisfação vendo a navalha cruel da existência, que ceifa sonhos e perspectivas e que perpetua a injustiça.

O sucesso do vilão e o eterno fracasso dos mocinhos é um retrato do tempo que McCarthy tenta imprimir nas páginas de seu livro. A palavra “velhos” do título não se refere apenas à idade, mas a um tempo que não existe mais. Onde a honra perdeu espaço e resta apenas a valoração da competência implacável, que não pergunta o nome nem se apieda.

Um tempo de grandes escritores a quem McCarthy não decepciona com sua escrita nova e cheia de vitalidade, tornando-se ele também um colosso a ser erguido no hall dos cânones, pronto para inspirar as próximas gerações.

Uma leitura essencial e fundamental. Que entretém, diverte, comove e ensina. Como deve ser a boa literatura.