![]() |
| Fotografia da minha autoria |
Tema: Dignidade Racial
Avisos de Conteúdo: Racismo, Preconceito,
Machismo, Violação, Segregação
A diversidade é um processo em construção - na vida e na literatura. Porque é necessário abrir a porta às minorias, aceitá-las e incluí-las, visto que continuam a ser parte de um todo e a merecer total respeito e consideração. Portanto, potenciar leituras inclusivas é o caminho, atendendo a que leva na bagagem o poder da mudança. E esta é uma missão consciente que também pretendo abraçar, por isso, aderi ao projeto Ler a Diferença, da Elga Fontes [Quem Me Ler]. Neste mês - cujo tema é a Dignidade Racial -, optei por regressar a Maya Angelou.
«Se crescer é doloroso para uma menina negra do Sul, ter consciência
do seu desajuste é a ferrugem na navalha que lhe ameaça o pescoço»
Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola é um retrato autobiográfico, que nos embala por uma viagem curvilínea e com vários contrastes. Porque une, no mesmo compasso, um mundo opressivo, machista, sexista, no qual são mais as barreiras impostas à comunidade negra, porém, sem deixar de transmitir uma onda de amor e de esperança. Através de uma análise franca e sem subterfúgios, a autora mostra-nos uma identidade resiliente, persistente, inspirando-nos a estender as asas e a libertarmo-nos de um contexto limitador. Assim, estas memórias, que vai desenlaçando, desorganizam-nos por dentro, porque impulsionam-nos a sentir, a refletir e a sermos muito mais empáticos com os demais.
«O mundo inspirara fundo e hesitava sem saber se devia continuar a girar»
O preconceito e a segregação dilaceram. E é este o tom que vai marcando o avançar da narrativa, pois coloca em evidência comportamentos de profundo desrespeito. Mas esta situação torna-se ainda mais angustiante, quando percebemos que se manifesta na vida de uma criança, impedindo-a de viver livre e segura. Além disso, permite-nos conversar sobre a desestrutura familiar, sobre as fragilidades emocionais, sobre a sexualidade e sobre o impacto que certas pessoas têm no nosso crescimento. Porque moldam a nossa conduta e alargam-nos horizontes - mesmo que nos façam acreditar que devem ser diminutos.
«Poderia muito bem ser o fim do mundo»
Esta obra, que carrega uma dose de poesia, implica uma jornada de desconstrução íntima, porque é impossível lê-la sem reconsiderarmos a forma como tratamos quem nos rodeia. Por isso, acredito que não nos mostra só a evolução da sua protagonista: faz-nos crescer também. E em todas as suas camadas senti a revolta, as inseguranças, o deslumbramento, o medo e o desafiar das regras impostas por uma sociedade com tratamentos desiguais, na América dos anos 40, porque My não nasceu para ficar presa a esta injustiça. Nasceu para voar. E eu fi-lo agarrada às suas asas, que nos inspiram a gritar pela mudança.
«O meu velho sentimento de culpa regressou como um amigo de quem sentira muito a falta»
Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola não omite a dor, nem a crueza das experiências, mas mostra-nos que é possível sobreviver. Embora exista muita desumanidade, cada um coloca no mundo o que transporta no peito. E Maya Angelou resistiu. Abriu as portas para abraçarmos a integração e a integridade. E, sobretudo, com uma voz consciente, fez-nos perceber que há sempre uma maneira de não calarmos a nossa essência.
«Compreendia a perversidade da vida, que é na luta que reside a alegria»
Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Muito obrigada pelo apoio ♥
