(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 09 de maio de 2000, sem as notas de rodapé)

Já temos o lançamento do ano na área da ficção: publicado em 1951, O ELEITO (Der Erwahlt) até agora, salvo engano, não tinha sido traduzido por aqui; porém, há muitos anos eu, assim como outros leitores, me deliciava com a notável tradução portuguesa de Maria Oswald (editada pela Portugália e pelas Publicações Europa-América); por isso, temia-se uma tradução nacional inferior, sem graça.

Pois graça é o que não falta a O ELEITO. Aliás, Thomas Mann (1875-1955) parece que estava literalmente em estado de graça ao escrever essa sua tardia obra-prima na qual, recriando um poema medieval, conta como dois belíssimos gêmeos de sangue nobre, Willigis & Sybilla, herdeiros de um ducado, praticam incesto, por serem apaixonados pela beleza um do outro (e o tema da beleza única é caro a Mann). Após a morte do pai, Sybilla engravida, eles se arrependem e a criança que nasce é lançada ao mar.

Sobrevive, é claro, e é recolhida por pescadores, sendo criado (é um menino) numa ilhota obscura por religiosos, com o nome de Gregorius, até descobrir os fatos de seu nascimento e resolver partir pelo mundo como cavaleiro—para viver aventuras e encontrar os pais pecadores.

Acaba chegando ao ducado de Sybilla que, depois da morte de Willigis, é assediada militarmente por um pretendente. Impressionado com a beleza e a nobreza dela, Gregorius desafia o vilão e o derrota; impressionada com a beleza e a nobreza dele, e pressionada por cortesãos a aceitar um  marido, Sybilla o escolhe como tal, tornando-se incestuosa pela segunda vez, sem o saber. Tem dois filhos com ele. Assim, Gregorius torna-se “o marido da mãe, o genro do avô, o cunhado do pai, o horrendo irmão dos filhos”.

Assim como aconteceu com Jocasta e Édipo, a verdade é descoberta e Gregorius resolve cumprir uma penitência terrível, vivendo acorrentado num penhasco ermo. Passados 17 anos, é resgatado por emissários de Roma, os quais, após uma visão em comum, foram à sua procura como o eleito para ocupar o lugar de Papa da cristandade.

O leitor pode ficar tão entretido, num primeiro momento, pelo encanto do enredo (aqui resumido tão canhestramente) que acabará não se dando conta do feito narrativo-lingüístico que é O ELEITO. Aproveitando ironicamente sua situação de expatriado (após fugir da Alemanha nazista, foi sucessivamente cidadão norte-americano e suíço), Mann escreve um romance com a contribuição de várias línguas (“de forma alguma quero insinuar que domino todos os idiomas, mas todos se fundem em mim à medida que escrevo e tornam-se uma única linguagem… Sobre as línguas, ergue-se a Linguagem”), mas nem por isso tornou-o ilegível e chato como aconteceu com James Joyce e seu Finnegans Wake.

Para unir o charme ambíguo do enredo com o seu virtuosismo lingüístico, o maior escritor do século XX vale-se de uma artimanha maravilhosa: faz um monge irlandês encarnar o espírito da tradição (que Lya Luft, a tradutora brasileira, verteu mais chochamente para espírito da narrativa)[1].

Já no início de O ELEITO, esse espírito faz com que toquem misteriosamente todos os sinos de Roma[2], para mostrar seus poderes e prerrogativas como espírito “volátil, incorpóreo, onipresente, insubmisso às diferenças entre aqui e lá”, e é ele quem vai tecendo comentários inesquecíveis sobre a arte de narrar, que na verdade é sempre a arte de recontar.

Brinca-se o tempo todo com o fato da história de Gregorius “acabar bem”, apesar dos seus horrívies acontecimentos. Brinca-se, em suma, com a grande arma das histórias: a expectativa do leitor. Veja-se, por exemplo, no capítulo “As núpcias” (de Gregorius e Sybilla): “Talvez me queiram mal por deixar na sombra esta passagem e não descrevê-la com todos os pormenores…”; e um pouco antes: “O gênio da Tradição, espírito comunicativo, gosta de introduzir os que o lêem e o escutam por toda a parte, até a solidão das personagens evocadas, até mesmo à intimidade das preces. Todavia, sabe também calar-se e evita a aludir a assuntos que lhe são penosos. Deixa-os mergulhados na sombra do silêncio, embora os acontecimentos não permitam dúvida alguma de como se concretizam em palavras, presenças e cenas”.

Ou ainda: Só eu, o narrador, antecipadamente cônscio do desenrolar dos fatos, conservo a minha perfeita serenidade, pois não ignoro de que maneira simples e natural se resolveu o dilema” (esse “dilema” diz respeito à aparência bizarra de Gregorius após 17 anos no penhasco).

Não faltam uns piparotes machadianos, admoestando os leitores: “Tenho coisas grandes, espantosas, a contar-vos, coisas que, para as narrar, é necessário ter coragem. Se, porém, tenho coragem para vo-las contar, deveríeis envergonhar-vos de não possuir ânimo bastante para as escutar. Todavia, não pretendo acusar-vos intempestivamente de incrédulos, prefiro confiar na vossa fé bem como na minha capacidade de contar com verossimilhança o acontecimento, transmitido pela tradição. Confio, pois, nesta capacidade e na vossa fé”.

É preciso que o leitor saiba que foram misturadas neste artigo passagens traduzidas por Maria Oswald e Lya Luft (o que, aliás, combina com a miscelânea lingüística do livro). Aludiu-se anteriormente ao temor de que esse romance de uma graça única, traduzido anteriormente de forma admirável, tivesse por aqui uma versão menos feliz. Na verdade, muitas vezes as soluções de Luft perdem longe para as soluções de Oswald, mas ainda assim é muito bonita a sua versão, e até encontramos nela, semeadas aqui e ali, passagens matreiras e surpreendentes que deixam para trás o recato lusitano. Se em Oswald se lê “Entristece-me contemplá-lo. A cabecinha infantil irradiava de inteligência sobre os magros ombros e já tão másculo”, temos mais picardia em Luft: “A mim, essa visão me deixa um pouco perturbado. Tão infantil, delicada e inteligente, a cabecinha sobre os ombros finos e, lá embaixo, aquele pinto enorme!” Sugerindo que o perturbado espírito da Tradição (ou da Narrativa) não é tão “volátil, incorpóreo, onipresente, insubmisso às diferenças entre aqui e lá” como pretendia a princípio.


[1] “…quando o espírito da Tradição se concentrou no monge que eu sou, por nome Clemente, o Irlandês, conservou muito desse caráter abstrato que o torna capaz de tanger todos os sinos das basílicas titulares da cidade”.

[2] “Quem tangerá, pois, os sinos de Roam? É o espírito da Tradição. Mas, poderá ele estar ao mesmo tempo em toda a parte, hic e ubique… Simultaneamente, em cem lugares consagrados? Assim é. Pode fazê-lo. É aéreo, incorpóreo, onipresente, não está sujeito às mutabilidades do aqui e do além. É ele quem diz: Todos os sinos ressoam. Foi ele, pois, quem os fez vibrar.”