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Único escritor lusófono a ser laureado com o Nobel, em Ensaio sobre a cegueira, Saramago antecipa questões de lutas sociais da segunda década do século XXI.
Giovana Proença
“Quantos cegos serão precisos para fazer uma cegueira?”, a pergunta ecoa as páginas de Ensaio sobre a Cegueira, livro decisivo para a conquista do Nobel de José Saramago em 1998, três anos após a publicação da magnus opus do autor português, primeiro e único lusófano a ser contemplado pela maior honraria da Literatura. A Academia Sueca, responsável pelo prêmio, enalteceu o escritor pela compreensão da realidade fugidia em suas parábolas. A declaração corrobora com o teor profético da obra de Saramago: a dissecação da anatomia das contradições de estruturas sociais que se tornariam latentes nas primeiras duas décadas do século XXI.
As narrativas alegóricas de Saramago, em seu uso magistral da figura de linguagem, ultrapassam a estilística e atingem o grito de clamor do Ensaio sobre a cegueira: a necessidade urgente do olhar. No século em que questões sociais tem se pautado como essenciais nas lutas por justiça e protestos por equidade, temas que permeiam o livro reforçam a visão afiada da autoria do considerado maior escritor português dos últimos tempos.
“Estou cego”, afirma a primeira vítima, nomeado no livro como o primeiro cego. A partir disso, com o avanço da contaminação, conhecemos outras personagens, nomeados por suas características e funções dentro da obra: o médico, a mulher do médico, a rapariga dos óculos escuros. Ian Watt define que o romance nomeia os indivíduos por um nome próprio na especificação, Saramago vai para outra direção: a padronização e a identificação. A cegueira pode atingir à todos, socialmente não há distinções. Tipos sociais desfilam nas páginas agudas de Ensaio sobre a cegueira e nos remetem aos personagens típicos de nossa própria epidemia, causada pelo vírus COVID- 19.
O maior trunfo da magnus opus de Saramago define-se no teor dos presságios de Ensaio sobre a cegueira, antecipando questões que se desenvolveriam na segunda década do século XXI, na eclosão de lutas de grupos minoritários. Em um dos pontos de tensão do livro, o valor da legítima defesa é questionado, no tratamento da vulnerabilidade de indivíduos indefesos – simbolizados pela cegueira – vistos como alvos, com justificativa nas supostas ameaças representadas. Impossível não traçar paralelo com as ondas de protestos que tomaram países como o Brasil e os Estados Unidos em reação ao racismo e a violência policial, quase sempre justificadas pela legítima defesa frente às ameaças imaginárias. Refletimos assim, quem são os corpos vulneráveis na nossa realidade palpável, remetendo ao conceito de homo sacer elaborado por Giorgio Agamben a partir de termos do direito arcaico romano, no que toca o poder soberano de decidir quais vida tem valor e direito de ser vividas, e quais são “matáveis” dentro da estrutura.
As ideias de Rousseau e de Hobbes acerca do estado natural humano duelam no texto, que contesta o limiar entre humanidade e animalidade: o bom selvagem de Rousseau e o homem em seu estado natural de Hobbes se manifestam, respectivamente, na pequena sociedade solidária formada pelos cegos protagonistas do livro de Saramago e no grupo que passa a dividir com eles o espaço do enclausuramento, controlando o fluxo de alimentos. A contradição entre a comunidade cega atinge o apogeu quando a alimentação passa a ter um preço: o corpo das mulheres.
“Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.” A frase que sintetiza o legado expressivo de Simone de Beauvoir, filósofa existencialista e feminista francesa, ganha vida no enredo de Saramago. Mais uma vez, o caráter premonitório de emergências de grupos sociais historicamente marginalizados sublinha O Ensaio sobre a cegueira, tendo em vista a explosão feminista que vêm adquirindo novos contornos na segunda década do século XXI, colocando temas como o empoderamento e o protagonismo feminino em evidência.
Sendo as mulheres as mais atingidas pelas injustiças da epidemia, o protagonismo para libertação do isolamento – e suas condições desumanizadoras – é todo feminino. Elas se sacrificam pelo bem-estar social, simbólico para se pensar a presença feminina na base da pirâmide comunitária A mulher do médico, única pessoa não infectada pela cegueira, é quem assassina seu algoz e estuprador; outra cega, aturdida pela violação, ateia fogo no espaço da quarentena, libertando- os para o mundo. Assim, as personagens descobrem que a cegueira atingira à toda população, ainda que apenas eles, os primeiros, foram isolados. Mais episódios traduzem o valor da união feminina: após os abusos, a mulher do médico limpa as companheiras em ato de alteridade, como se purificasse a si mesma; já libertas, as mulheres do núcleo civilizador que se firmara no isolamento, se colocam a lavar as roupas, elas próprias, e a rir em meio à chuva, em celebração da aliança.
O primeiro cego, ao machucar-se, vê o sangue como algo alheio de si, ainda que o pertencesse. A alienação de aspectos intrínsecos a si, é o primeiro fator para a alienação das minorias quanto as contradições das estruturas de poder que regem o organismo social. Enclausurados, sem condições básicas de vivência – em ares que aludem ao ambiente das superlotadas prisões brasileiras – os indivíduos cegos são retirados de sua humanidade, ainda que não possam se perceber privados do estado civilizatório.. A obra de Saramago é um grito contra às opressões, de modo que antecipa em caráter premonitório questões ligadas à debates que emergiram na segunda década do século XXI, em lutas sociais de grupos historicamente marginalizados
O maior escritor lusófano dos últimos tempos pauta, na figura da mulher do médico, “a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”, uma ode aos que enxergam a violência, e tomam atitudes práticas para seu fim. A obra instaura a importância da visão, o olhar para o mundo em sua faceta mais brutal e o questionamento: não estamos todos cegos? Saramago é necessário, em tempos pandêmicos que ressoam tanto o Ensaio sobre a cegueira, precisamos constatar que o mundo pode se aproximar do estado que em suas personagens o viram, curados do cegamento: tomado pela barbárie.

Publicado por Giovana Proença
Taubateana de 2000. É pesquisadora na área de Teoria Literária na USP. Tem textos sobre livros e literatura publicados em jornais como Rascunho, Estado de Minas e O Estado de S. Paulo Ver todos os posts de Giovana Proença