Ao contrário de muitos escritores que são promovidos como magistrais mas acabam frustrando a expectativa do leitor, o italiano Sandro Veronesi faz jus à fama que conquistou e se confirma como um caso realmente exemplar na literatura contemporânea. Seu talento se comprova não apenas pelos dois prêmios Strega (comparáveis ao nosso Jabuti) que ele ganhou com Caos calmo (Ed. Rocco, 2007) e O Colibri, bem traduzido por Karina Jannini e publicado pela Autêntica Contemporânea em 2024, mas também pelo vigor de outros romances traduzidos no Brasil, como XY (Ed. Rocco, 2011) e Setembro Negro (Autêntica Contemporânea, 2025).

Seus livros conseguem ser, ao mesmo tempo, clássicos no conteúdo e inovadores na forma. São clássicos por corresponderem à expectativa do leitor “inteligente” que quer que o romance o enriqueça e o estimule com informações precisas, propostas originais, intriga envolvente, interesse contínuo e a “formação” que propicia. São inovadores pelo estilo, pela maneira dinâmica de apresentar os acontecimentos, para que o livro não se torne cansativo, prolixo. Tomemos como exemplo O Colibri, o livro de Veronesi mais comentado no momento, e comecemos pela forma.
O narrador é Marco Carrera, um oftalmologista de meia idade que vê sua vida no passado, no presente e no futuro, colocando nos capítulos, além do título, simplesmente uma data: 1999, 1981, 1970-79, 1960-70, 2008… até 2030. Assim o leitor, quanto ao tempo e ao espaço, não precisa de outras explicações. E mais, os acontecimentos que envolvem as personagens que veremos são encaixados em e-mails (entre ele e Luisa, a amada epistolar); diálogos telefônicos ou presenciais (entre ele e Daniele Carradori, o psicanalista transgressor da mulher de Marco, a ex-aeromoça eslovena Marina Molitor, afeita de uma doença neurológica oculta que talvez tivesse transmitido à filha suicida, Irene); em cartas (entre ele e o irmão Giacomo, que Marco descobre tardiamente apaixonado pela mesma Luisa); em catálogos (os livros do pai, engenheiro submisso à mulher arquiteta, que tinha como hobby colecionar os romances da editora Urânia, apresentados ao leitor por Marco numa série, que ele pode ler ou, simplesmente, descartar, tal como ocorre em Setembro Negro, com as músicas favoritas dos dois protagonistas principais); e também em biografias (como a do mestre Osamu Tezuka, o deus do mangá, ídolo de sua filha Adele e muito amigo — ele conta — de nosso cartunista Maurício de Sousa, que incluirá na “Turma da Mônica” muitos de seus personagens).
Pronto, o resto é a narrativa à qual estamos acostumados, feita de descrições nunca gratuitas, como a dos episódios do amigo da juventude desenfreada, Duccio, Blizzard, Chilleri, o Inominável, que com seu dom de previsão — sua profissão era a de ser contratado como “pé frio” — lhe salva a vida, o leva a ganhar um milhão de euros que ele recusa etc.; como a do fio preso às costas da filha Adele, a respeito do qual o psicanalista transgressor dá uma interpretação valiosa (“os psicanalistas falam comigo através das mulheres que eu amo”); além de uma série de considerações extremamente interessantes que coroam cada episódio: “Quando uma relação nasce é possível vê-la bem porque, na realidade, tudo já está contido no início, como a forma de todas as coisas está contida em sua primeira manifestação”; “Era justamente de um deslumbramento que ele precisava para conceber a própria rebelião. Graças à insolência daquele objeto, ele conseguiu ser insolente em relação ao próprio luto”; “A transgressão é que conferiu o Eros”; “Encontrar o ponto de sua vida além da qual restava apenas o uivo dos lobos”; “Estar em busca da razão para continuar a sua vida”; “Olhar é tocar à distância: os olhares são corpo”; “Sou o que vejo” e, inversamente, “Sou o que os outros veem de mim”; “É típico do jogador fazer pouco de sua vida”; “Os lobos não matam os cervos sem sorte, matam os fracos”…

Mas podemos dizer que o ponto culminante do romance é reservado para o fim. Na última carta que Luisa escreve a Marco, ela desvenda o significado que o apelido “Colibri” tem para ela, utilizando um termo de origem grega, “emenalgia”, a arte de manter-se firme: “Você é um colibri porque põe toda sua energia em permanecer parado. Consegue parar no mundo e no tempo e consegue parar o mundo e o tempo ao seu redor e, às vezes, consegue até voltar no tempo e encontrar o tempo perdido como o colibri que é capaz de voar em marcha a ré”. Ao que Marco responde: “O fato é que é fácil entender que haja um motivo no movimento, mas é mais difícil entender que haja algum também por trás da imobilidade. Mas isso é porque nossa época foi conferindo cada vez mais valor à mudança, inclusive como fim em si mesma… Não estou me fazendo de vítima, Luisa, é só para te dizer que eu também não fiquei parado; antes tivesse conseguido. Se tivesse dependido de mim sim, eu teria ficado parado, mas não foi possível e cada mudança que sofri produziu um choque tremendo que me tirou do chão e, literalmente, me atirou em outra vida e depois em outra e em mais outras; vidas às quais eu tive que me adaptar brutalmente, sem mediações. Você entende que para mim é um alívio preservar o máximo de coisas possíveis? […] Agora tenho uma missão a cumprir, que dá sentido a tudo o que tive e não tive, incluindo você: criar o homem novo, e o homem novo é a menina de oito anos que vive debaixo deste teto”.
Sabe-se, que depois da morte da filha, Adele, e a incapacidade mental da ex-mulher, Marina, a netinha Miraijin ficou a cargo de Marco, que a ama e a admira. Ela passa a ser a razão de sua vida e, para ele, representa o ser humano do futuro. É a ela que o protagonista dirige sua mensagem final: “Você, Miraijin, e aqueles como você, serão recrutados e treinados para lutar em uma guerra na qual ninguém quis lutar antes, embora há tempos que se sabia que se tratava disso, de uma guerra, uma guerra feroz entre verdade e liberdade… E você e vocês [estarão] alinhados do lado da verdade, pois a liberdade já terá sido transformada em um conceito hostil, que arreganha os dentes e é imperdoavelmente plural — as liberdades, as infinitas liberdades nas quais esta palavra terá sido desmembrada, como a zebra é desmembrada pela alcateia de hienas que a devoram”.

Seguem-se páginas das metástases dessa liberdade que, conforme Marco exemplifica, mataram o discernimento, a piedade e a velha “bondade”, tais como: “liberdade de escolher sempre o que preferimos, liberdade de não se submeter às leis, liberdade de não respeitar os valores, liberdade de recusar toda autoridade, liberdade de não se render diante das evidências, liberdade de se insurgir contra a cultura, liberdade de acreditar na notícia falsa, liberdade de poluir lençóis freáticos e o fundo do mar, liberdade de rechaçar os refugiados e os náufragos, liberdade de caçar os elefantes, liberdade de ser cruel, incorreto, liberdade de perseguir, única e exclusivamente a própria vontade […]”.
“Lembre-se do seu futuro, Miraijin, (porque a essa altura, é disso que se tratará, de um programa, no sentido próprio de uma doutrina, de uma enunciação de preceitos a serem seguidos, de mudanças de comportamento a serem adotadas, e de resultados a serem obtidos, desenvolvidos pelas mais belas mentes que estarão lutando, a seu lado)… Su vida es mi vida.”
Aurora Fornoni Bernardini é escritora, tradutora e professora titular da USP no Departamento de Línguas Orientais e na pós-graduação no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada. Graduou-se em inglês (1959-1963) e em russo (1962-1966) pela USP, onde ainda concluiu seu mestrado (1970, sob orientação de Boris Schnaiderman) e doutorado (1973, sob orientação de Alfredo Bosi) sobre o futurismo russo e italiano, e sua livre-docência (1978) sobre Marina Tsvetáieva. Dedica-se também à pintura, tendo realizado exposições individuais e coletivas.