resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, de forma um pouco mais condensada, em 08 de novembro de 2011)
Quem tem medo de Joyce Carol Oates?
Eu tenho, leitor. Não exatamente por sua aparência, digamos “exótica”, onde ela usualmente exibe um ar de Morticia Adams (ver abaixo). E sim porque é temível acompanhar a sua obra. Atualmente com 73 anos, ela continua num furor criativo que só encontra paralelo no de António Lobo Antunes, lançando romances imensos (além de textos de outros gêneros) ano a ano, sem descanso, nem para si mesma nem para seus leitores mais fiéis. Tirando sua já enorme produção anterior[1], de 2000 para cá ela publicou os romances Blonde, Middle age (2001), Levo você até lá (2002), The tattoed girl (2003), As cataratas (2004), Missing mom (2005), Black girl, white girl (2006, traduzido em Portugal, com o título Rapariga negra, rapariga branca), A filha do coveiro (2007), Minha irmã, meu amor (2008), Little bird of Heaven (2009), A fair maiden (2010).
Nesse frenesi prolífico aflitivo, o último livro que eu conseguira ler da admirável e ciclópica escritora norte-americana tinha sido Missing Mom (aqui no Brasil, A falta que você me faz), no qual a mãe da protagonista era assassinada e acompanhávamos todo o seu processo de luto, numa clave mais intimista e delicada, um tanto incomum no universo de Oates, geralmente mais carregado e exuberante. Na verdade, o livro me decepcionou. Após as 80 páginas iniciais muito intensas e promissoras, ela parecia ter tentando cortar as carnes do seu cadáver para entrar na atmosfera dos romances de Anne Tyler (outra escritora maravilhosa, ou pelo menos costumava ser), sem nunca conseguir plenamente (ela conseguira essa atmosfera e intimista nos relatos curtos de Educação sentimental, um de seus melhores livros[2]).
E não se contentando com o fato já brutal do assassinato da mãe, ela ainda amplificava como descobertas cósmicas (mesmo porque o livro tem 400 páginas) “segredos” da vida pregressa da morta, como o amor adolescente por um almofadinha que virou padre, o aborto decorrente desse romance frustrado (a mãe, que era uma pessoa leve e positiva, também havia encontrado a própria mãe banhada em sangue, após cortar os pulsos); mas o pior mesmo é que toda a narrativa se encaminhava para a consolidação do romance entre a personagem principal e o policial que investigara o caso, uma solução bisonha e até constrangedora. Mais bisonho e estranho ainda era que, mesmo com todos esses gritantes defeitos, a narrativa nos prendia. Eu me irritei muito com Missing mom, só que nunca pensei em largar sua leitura.
Minha irmã, meu amor (My sister, my Love, traduzido esplendidamente por Vera Ribeiro, responsável também pela versão brasileira de Missing mom; outra coisa que os dois livros têm em comum nas edições brasileiras, uma da Nova Fronteira, outra da Alfaguara, é a escolha de capas lamentáveis) é de outro escopo, aliás mais afinado com as características oateanas peculiares: aqui, o assassinato de Bliss Rampike, irmã do narrador, Skyler, é estridentemente explorado pela mídia de uma forma que pulveriza a família e ganha uma dimensão ainda mais atemorizante porque inunda a “cloaca do ciberespaço” (termo de Skyler), como um “eterno retorno” infernal.
O livro se baseia num caso real: uma menininha de seis anos, célebre como patinadora no gelo mirim, morta no porão da sua casa e deixada numa postura “sexy”. Um pedófilo chega a ser preso, contudo o caso nunca é devidamente esclarecido e suspeitas pairam até mesmo sobre os familiares.
Em Minha irmã, meu amor (título deliberadamente apelativo, já fincando pé nesse universo de exploração sensacionalista), após desistir do filho, Skyler (que sofre um acidente numa aula de ginástica e fica eternamente “troncho”, fadado a ser um fracassado), Betsey Rampike (ela e o marido, Bix, são as grandes criações de Oates; quando ele abre a boca em suas perorações sobre o mundo, o texto é um arraso), sentindo-se desdenhada pelas pessoas do meio social para o qual mudaram (um lugarejo chique em Nova Jersey), seguindo a ascensão profissional de Bix (que, ao contrário dela, é um peixe dentro d´água em qualquer hierarquia social), encasqueta transformar a filhinha caçula numa estrela. Por sorte, Edna Louise tem vocação para a patinação no gelo (ao contrário de Skyler, e Betsey bem que tentou), único lugar onde não parece apática e estranha. A partir daí, a loucura multiplica-se: plásticas, injeções de vitaminas, remédios, treinadores, choques elétricos nos folículos capilares, tudo para transformá-la numa “queridinha do público”. Chega-se ao ponto de obrigá-la a aceitar um novo nome: Bliss.
Qualquer um que tenha visto alguma matéria sobre concursos infantis de todo tipo nos EUA sabe que não há exagero algum no retrato traçado por Oates. Eu, feroz opositor da intervenção do estado na vida privada, até já fui tentado pela veleidade de que se tirasse a guarda dos filhos de gente que rouba sua infância, tratando-os como investimento, exigindo uma postura profissional (sem falar na sanha competitiva) ou mesmo um uso do tempo “produtivo”, como se elas já tivessem que “contribuir” para a sociedade ou exercer um papel qualquer.
Apesar do minucioso e poderoso painel (pois o que move Joyce Carol Oates é ainda aquela ambição à Zola, da qual Theodore Dreiser talvez tenha sido o maior representante em seu país, da tranche de vie, de mostrar uma “fatia de vida”) dessa loucura por sobressair-se que tomou conta do mundo e que se reparte em mil subculturas, e também à sátira ao clichê da “superação” (a mãe de Bliss comanda toda uma indústria de vendas de livros e produtos chamados “Emanações do Céu” após a morte precoce da filha), o que impediria Minha irmã, meu amor de ser algo similar a um episódio de Law & Order-Special Victims Unit ou a um telefilme “baseado em fatos reais”?
É que não há apenas a “tranche de vie” (de fato, nem em Zola nem em Dreiser havia só isso, apesar dos estereótipos consagrados, é preciso fazer essa justiça a eles: em ambos há um furor visionário que os aproxima, curiosamente, de Melville). A narração de Skyler, cuja vida foi detonada antes e depois do assassinato de Bliss e que às vésperas do crime completar dez anos, se joga com fúria num relato ciclópico tentando descobrir se foi ou não o autor do crime, já que não se lembra exatamente dos fatos, é construída na tradição digressiva e jocosa de Sterne (é preciso dizer, no entanto, que–ainda mais se tratando de um texto norte-americano–que sentimos a sombra de Holden Caulfield e sua inadaptação ao mundo, em O apanhador no campo de centeio pairando sobre Skyler) : auto-comentada, cheia de notas de rodapé, de soluções tipográficas inesperadas, de provocações ao leitor, enfim, um triunfo de virtuosismo, e leva o texto muito além do melodrama e da exposição naturalista da ânsia por celebridade. Para mim, é como se Skyler, ainda saindo da adolescência, mas já um jovem-velho, projetasse o afã de Joyce Carol Oates, velha-jovem, de dar conta do mundo de hoje, incluindo a “cloaca do ciberespaço”. É possível um romance que dê conta do mundo, através de uma “fatia de vida”, as aspirações suburbanas norte-americanas? Sim, se Zola dividir suas tarefas com Sterne, há uma grande possibilidade. Pelo menos, foi o que achei após a leitura das 600 páginas de Minha irmã, meu amor.
É certo que depois do assassinato consumado, depois que nos mergulhou em 350 páginas da “tranche de vie”, mesmo com a exuberância sterniana de Skyler, o livro cai um pouco, principalmente ao narrar exaustivamente um caso de amor da sua adolescência (que só acentua seu desespero e sua inadaptação). No entanto, ele logo se recupera nas cem páginas finais (mesmo porque reaparece Bix): após anos de afastamento, nosso herói recebe uma mensagem conciliatória da mãe e decide procurá-la para um confronto esclarecedor, onde saberemos o que ocorreu de fato.
Ler Joyce Carol Oates é às vezes uma experiência de excesso, só que é igualmente uma injeção de adrenalina em meio à pasmaceira. A overdose nos espreita, mas o risco vale a pena.
[1] Evidentemente, o livro mais famoso de Oates continua sendo Them- Eles. Eu acho mais impressionante um romance um pouco mais antigo, Um jardim de delícias. Dos posteriores a Eles que eu conheço, meu favorito ainda é You must remember this- Para jamais esquecer.
Numa obra com essa quantidade de títulos, entretanto, essas eleições são sempre provisórias. Tenho pena do masoquista que resolve eleger Oates para tema de dissertação de mestrado ou tese. Terá de ser, antes de tudo, um forte.
[2] Traduzido no Brasil em 1985 por Lia Wyler para a editora efêmera editora Anima.








