antonio geraldo

“…mas a cabeça regulada, querendo impor outra melhor ordem na memória, requentando o café para as visitas que hoje somos e estamos, para que eu possa pôr novo reparo nas manchas  que não via nas roupas, no instante que escapuliu quando todos foram morrendo…”

“…às vezes um artista se vê na obrigação de repetir o que outros disseram, o que ele mesmo já disse, apenas porque na verdade ninguém escuta nada, e um artista também precisa identificar no ruído geral aquilo que pede um coro sublinhado por parte de quem tem algum bom senso, fazendo eco não em razão do próprio tom, mas pela arte de fundo que precisa ser identificada, entende?, mas  o que eu dizia há pouco, mesmo?…

“… e isso é um deus nos acuda de desvios..”

das_visitas

(uma versão condensada do texto abaixo foi publicada na Folha de São Paulo, de 04 de março de 2013:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/96745-leitura-e-experiencia-caudalosa-mas-formidavel.shtml)

Se os franceses inventaram o roman-fleuve (romance-rio), Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, em sua estreia no gênero,  criou o romance-aluvião. As 448 páginas de As visitas que hoje estamos, as quais apresentam de ponta a ponta forte controle autoral, inclusive nos aspectos gráficos, são uma experiência caudalosa até para os leitores mais calejados, com sua vozearia (inúmeros personagens tomam a palavra, num “ruído geral”, “apenas porque na verdade ninguém escuta nada”, como está lá na epígrafe), vinhetas (“esse povo é assim, quando as coisas dão certo pra eles, foi deus, eles merecem, mas se uma coisinha dá errado, pronto, foi olho gordo da gente”), poema—e os há jocosos, os há sérios e os há jocoso-sérios (“agora resta voltar/quero subir do meu ser//fugir de quem me empareda/de quem respira o meu ar//de quem sussurra, a dizer/não sou escada, sou queda”), fotografias, aforismos (“Não raro, o cansaço arrependido, depois do sexo, resulta da sensação incômoda, porque certeza, de que a nossa espécie foi longe demais”) e mesmo uma peça, Os olhos de Jussara (deixada por um escritor-suicida, Eusébio Souza), que enlaça incesto e câncer, cuja ação se intercala através do texto.

Na raivosa e contundente enchente narrativa, vêm arrastados o Brasil “profundo”—embora aparentemente circunscrito à região entre São Paulo e Minas–, o povo brasileiro arquetípico, e os pequenos nadas da vida: a passagem do tempo, a instabilidade econômica, os altos e baixos da sorte, os atos sórdidos, as guerras conjugais, a solidão, lendas urbanas (tem até a alusão ao “homem do saco” tão presente na infância de quem aqui escreve), a maciça presença dos santos, de fato tanta devoção, e no entanto a desordem geral, o desalinho de todo o tecido social (“por que será que deus olha mais pra uns do que pra outros?, será que tira par ou ímpar com o capeta e divide os homens?, aquele ali é meu, pronto…”). Há quase um enciclopedismo na maneira como velhos, jovens, casais, filhos, vizinhos, chefes e empregados, mendigos, animais de estimação vão marcando presença anônima (com algumas exceções) no tecido textual nada desalinhado, embora irregular. E, permeando tudo, certo humor, insólito, é claro, e um ainda mais estranho (e certamente intenso) prazer que o mergulho na torrente de As visitas que hoje estamos oferece ao leitor que seja, antes de tudo, um forte.

Como toda experiência radical, o livro causa tanto estranheza quanto fascínio. Por isso, executo a temível, odienta operação: domesticar a experiência de leitura, aproximando-o (sem jamais fazê-lo epígono) de dois universos já consagrados—e de certa maneira antípodas–em nossa ficção, os de Dalton Trevisan e Hilda Hilst.

Do primeiro, ele tem aquela ambientação “caipira”, com forte rastro rural, mesmo “modernizada”, e já deveras urbana (como pudemos acompanhar no arco que vai de Novelas nada exemplares até coletâneas mais recentes como Violetas & Pavões), e principalmente aquelas relações humanas apresentadas num nível tão primitivo e nu de disfarces, que as torna quase produtos do inconsciente; da segunda, ele tem o pendor para o escatológico, tanto no sentido fisiológico quanto no sentido apocalíptico, além do discurso-magma, sulfúrico: “você finalmente no banheiro, na frente do espelho, sozinho e pelado com você, enfim, escritor que obrou na hora certa, mas no lugar errado, fora do penico, o microcosmo falido de uma época, retrato a três por quatro dos homens, mas de corpo inteiro, mal cabidos em si no espelho ou nas páginas de um livro injustamente esquecido, de um livro nem sequer lembrado, imprestável até como papel pra limpar o cu em flor, ou  a boceta daquela puta filha da puta que você comeu pela primeira vez  no motel de uma cidade vizinha, no ano passado, e depois em casa, pulou miudinho despejando álcool na cabeça do pau…vai saber a qualidade do látex nesse país de bosta…isso, isso, o autor como produtor de merda, produtor da porra, isso sim, porra ou merda, sirvo só pra isso caralho? caralho e cu?…”

A diferença, com relação à autora de “A Obscena Senhora D” (e que o aproxima mais de Trevisan—não fosse também o gosto pelas microhistórias nada exemplares, por exemplo: “ele é o que mais quer, acho que está até atrapalhando, desde mocinha eu imaginava que tinha que ter um pouco de amor, acho que não engravido por isso, ele nem termina direito e vai dizendo, vai, vai, levanta o quadril, estica as pernas na parede, do jeito que o médico falou…”) é que, nela, há mesmo a presença forte da dimensão mística; no mundo de Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, os inúmeros apelos e referências a Deus, aos santos, toda a devoção e superstição, as frases-feitas, os ditados pios, são como um eco esmaecido, quase moribundo, e às vezes burlesco, de princípios transcendentes. Veja-se uma fala de Gislaine, uma das personagens de Os olhos de Jussara (que teve duas filhas com o próprio pai e cuja mãe está num estágio terminal: “O negócio do mundo é derrubar com o rodopio da vida aqueles que andam soltos… E a gente vai se virando com ele, fazendo força pra girar pro outro lado, torcendo pra tontura passar… Passar, não passa, mas Deus vai colocando as paredes no lugar certo pra apoiar, coloca uns postes… Bom, de vez em quando a gente se desequilibra e dá umas cabeçadas… Olha, parece que é mais difícil morrer do que viver, valha-nos Deus, todo poderoso!”

Ao fim e ao cabo, o nada epigonal  As visitas que hoje estamos é um texto formidável. E à medida que sua reputação cresça, como acredito que acontecerá mais cedo ou mais tarde (é o destino das obras originais), maior será o perigo para o autor: porque agora dele só esperaremos coisas superlativas. Não queria estar em sua pele.

hildaDalton Trevisan

TRECHO SELECIONADO

“… era assim, o oratório também fechado a chave, em multidão de imagens, ela muito carola, sempre, deus como chave mestra?, não, pra ela, chave mestra seria o diabo, com certeza, o oratório não tinha espaço pra mais nenhuma grande virtude, por menos que fosse o santinho, santo antônio olhando por sobre os ombros de são benedito, de são roque, são geraldo pisando o cachorro que trazia o pão na boca, são francisco de mão quebrada, com um pombo solto, meio estropiado, também,  desasado de um lado, manco de voo, de vez em quando entrava correndo no quarto, ela me chamava gritado, o assoalho se movimentava um pouco mais e o pombinho caía, ela ficava fula, eu dizia, pro pito ser menor, a pombinha avoou, vovó, a língua enrolava, ela não ria, mas também não tentava despregar minhas orelhas, o que já era uma bênção vinda de sua brabeza diária, ela, então, abria a porta do oratório e, não sei como, enfiava a mão por entre o povaréu sem empurrar ninguém, sem dar safanão em santo, eu torcia, confesso, pra ver o dominó de imagens, os primeiros enfiando a cara sonsa no vidro, mas o quê?, ela pegava o pombo com a ponta dos dedos e o recolocava no lugar, apoiando sua única asa no ombro de são sebastião, que devia fazer aquela cara de cansaço por causa do passarinho pesando, o braço levantado na altura certa, uma flecha escorando o pouso, havia outros santos, não me lembro de todos, são martinho, por exemplo, são josé, e por aí vai, ela me chamava para rezar, e não havia desculpa, rezar e rezar com ela, os olhos em jesus crucificado, reinando sobre aquelas cabeças todas, e, por incrível que pareça, ocupando a posição mais confortável do oratório, pensava isso comigo mesmo, na época, tenho certeza disso hoje, quando pego o metrô às seis da tarde, as santas ao fundo, uma sagrada família na fronteira entre homens e mulheres, nesse caso concordo com vovó, não ficava bem a mistureba, como o perdão da imagem, santo encoxando santa, imagine, era mais fácil vovó ter um treco, então todas lá no fundo, santa terezinha, santa bárbara, nossa senhora de fátima, de lurdes, do perpétuo socorro, santa edwiges, santa luzia, e o penico dela sob  a cama, com as flores decalcadas no esmalte esfolado, expondo, como os santos, chagas negras de metal, penico no soslaio da oração, como a descoberta de um segredo, de sua intimidade resguardada a chave…”

13062314arceburgo