03
Abr23
Maria do Rosário Pedreira
Acabei ontem a leitura de uma obra bastante breve, com cerca de cem páginas, de um livro de uma autora que comecei a ler, percebo agora, tarde demais. Trata-se de Silvina Ocampo e do seu pequeno e único romance A Promessa (ela é sobretudo contista), que foi começado muitos anos antes da publicação e que foi sendo burilado aos longo dos anos e terminado pouco antes da morte da escritora. É um romance que Bruno Vieira Amaral apreciaria, julgo eu, por ter também uma lista de personagens que podem não se cruzar com mais nenhuma na narrativa, sem que isso afaste o leitor da compreensão do enredo, tal como acontece em As Primeiras Coisas. Mas a graça aqui está em que a evocação destas personagens pela narradora se faz como uma espécie de pedido de socorro, pois ela caiu de um navio acidentalmente e, enquanto nada ou boia no oceano, promete que escreverá sobre todas as pessoas que conheceu se um dia se safar daquela situação; e é assim que começa a rememorar, por exemplo, Irene, Gabriela (ou Gabriel, como lhe chama a mãe), o macho Leandro, por quem todas se apaixonam, as senhoras da sapataria, o Gusano e muitas outras figuras, com ou sem importância na vida da pobre náufraga. Vale muito a pena ler esta senhora, que esteve muitos anos na sombra do marido, Adolfo Bioy Casares, outro escritor argentino de mão cheia que, quando ia de férias, levava a vaca de cujo leite gostava...