Adriana Lisboa Azul-Corvo Quetzal
Se em Rakushisha Adriana Lisboa desmontara a ideia feita da viagem como elemento facilitador da escrita, desfazendo lugares-comuns ao ritmo dos versos do poeta japonês Matsuo Bashô, em Azul-Corvo encena-se uma espécie de road book que não é mais do que a grandiosa travessia de uma adolescente em direcção à sua identidade. E grandiosa não porque seja épica, mas porque os seus passos incluem a construção de uma memória marcada pela noção constante de que a imensidão do mundo, a perenidade da vida ou as gloriosas narrativas que vamos criando para nos sentirmos humanos são tão insignificantes perante o passar do tempo como essenciais para que consigamos passar, tão incólumes quanto possível, por esse mesmo tempo, pertencendo, por direito, a alguma coisa – um espaço, uma família, uma ideia.
É Evangelina quem narra a sua história, cruzando a morte da mãe, a saída do Brasil para os Estados Unidos, em busca do pai, e o encontro com Fernando, ex-marido da mãe que um dia perfilhou Evangelina para que não lhe faltasse um nome paterno na certidão. Deste encontro nascem outras memórias, alheias e logo apropriadas, da guerrilha contra a ditadura brasileira à constatação de que uma árvore genealógica nem sempre cresce a partir do sangue. E nascem reflexões várias, porque Evangelina é uma narradora exímia em fazer desfilar dúvidas e vontades numa catadupa sintáctica e estilística impressionante, reveladora do estilo muito reconhecível de Adriana Lisboa, uma falsa (mas bela) fragilidade verbal a envolver frases de assombrosa violência telúrica.
Sara Figueiredo Costa
(publicado na Time Out, Agosto 2012)
