SESSÃO DE LEITURA COM A ISABEL PEIXEIRO (08/03/2025)

 Paula Pessanha Isidoro

 

APRESENTAÇÃO

 Foi ratinho de laboratório durante muitos anos, mas não se pense que a dedicação à investigação lhe roubou a imaginação. Nada disso! Até porque segundo a própria, sem criatividade ninguém faz ciência de verdade. Pelo menos em Portugal. 

Um dia, depois de muitos dias no vai-não-vai, foi mesmo embora. Fechou a porta, pendurou a bata e entregou-se a outras lides: os livros, as histórias, a edição. Não sei se esse caminho de ida terá volta, mas espero que, se for o caso, haja sempre tempo e espaço na cabeça da Isabel para mais um conto, um poema, uma ilustração. Sim! Ilustração, porque não? Com ela sobram-nos Razões para ler, e há sempre algum conto ou cantilena à nossa disposição, seja sobre um Senhor caracol ou Talvez de um cão. Às vezes não sabe se Vai subir ou vai descer, mas isso é porque ainda tem muita coisa para criar, fazer e crescer. Hoje, para nos falar da poesia que é química ou da química que se tornou poema, temos connosco a Última contadora de histórias, dado que gosta pouco que lhe chamem escritora, mesmo que saibamos que o é: Isabel Peixeiro.

Obrigada, Isabel, por não teres recusado VIR hoje partilhar a leitura do teu IR, num dia tão especial, o da Mulher, num mês também muito querido para os amantes de poesia. É mesmo um prazer e um privilégio contar contigo, porque, atenção, eu e a Isabel nunca estivemos juntas ao vivo, nunca. Conhecemo-nos online através da Margarida Fonseca Santos e confesso-vos que tenho muita, muita vontade de saber como é o abraço dela. Será que vai ser este ano?

 Queria que soubesses que nós andamos a brincar aos químicos de palavras porque, numa noite de insónia, me lembrei de ver se os elementos da tabela periódica se prestavam a formar palavras. Ora, prestavam mesmo e eu decidi experimentar e divertir-me um bocadinho a ver se o sono chegava. Este foi um dos resultados:


- Chefe?

 - Sim!

 - Temos tudo preparado para recebermos a nossa escritora convidada: café do Brasil servido em chávenas de néon, bananas de silicone, um pirata sexy que faz crossfit, um professor de álgebra feliz que vive numa caravana com uma iguana, a que chamou Maria Camila. Assim de repente não sei se me estou a esquecer de alguma coisa, chefe.

 - Está! Mas é que está mesmo.

 - Não me diga, chefe!

 -Sentido comum, homem, sentido comum! A escritora Isabel Peixeiro vem apresentar um livro de poesia, o Ir, sobre o elemento químico Irídio. Acha que precisamos deste estenderete todo para a recebermos, homem?

 - Ai chefe, que grande confusão! Eu percebi que o livro era de RIR, chefe, de RIR.


AlGeBRA: Alumínio (Al), Germânio (Ge), Boro (B), Rádio (Ra)

BaNaNa: Bário (Ba), Sódio (Na), Sódio (Na)

Brasil: Boro (B), Radão (Ra), Silício (Si), Iodo (I), Lítio (Li)

Café: Cálcio (Ca), Ferro (Fe)

CaMiLa: Cálcio (Ca), Manganês (Mn), Lítio (Li), Alumínio (Al)

CaRaVaNa: Cálcio (Ca), Rádio (Ra), Vanádio (V), Sódio (Na)

CHeFe: Carbono (C), Hidrogênio (H), Ferro (Fe)

CrOssFiT: Crômio (Cr), Oxigênio (O), Enxofre (S), Flúor (F), Iodo (I), Titânio (Ti)

FeLIZ: Ferro (Fe), Lítio (Li), Zircônio (Zr)

GeNiAL: Germânio (Ge), Níquel (Ni), Alumínio (Al)

LiNa: Lítio (Li), Sódio (Na)

MaRiA: Manganês (Mn), Rênio (Re), Iodo (I), Alumínio (Al)

Neon: Níquel (Ni), Oxigênio (O), Nitrogênio (N)

PiRaTa: Fósforo (P), Iodo (I), Rádio (Ra), Tântalo (Ta)

PRoFeSSoR: Praseodímio (Pr), Oxigênio (O), Ferro (Fe), Enxofre (S), Enxofre (S), Oxigênio (O), Rádio (Ra)

SeXy: Selênio (Se), Xenônio (Xe), Ítrio (Y)

SiLiCoNe: Silício (Si), Lítio (Li), Carbono (C), Nitrogênio (N), Oxigênio (O)







Para concluir este nosso encontro, neste dia 8 de março de 2025, pedimos ler à Isabel Peixeiro o poema da página 49.

 

deixa-te (ca)ir

ainda que ninguém te segure

as pétalas de chuva

alagam a sede lá fora

lá dentro os monstros

espremem as nuvens

por entre os dedos

escapam alguns poemas

raros precisos sólidos

germinam no fundo do poço

 nasce mulher

ainda que não saibas como

a papoila encarniçada

emerge do asfalto

e marca as pegadas

na cisão da aurora

sacode dos ombros

culpa dor cansaço

fórmulas das células dos átomos

a humanidade inteira

olha-te nos olhos

ainda que a ferida infinita

não abra caminho

para uma outra verdade

que te encha os pulmões

e dilua as palavras

louca! histérica! pedras

as armas

capazes de transformar

luar em peso inútil