[caderno de anotações] O homem que plantava árvores
literatura francesa, fábula, meio ambiente, jornalismo, ficção
Daniel Bueno/Divulgação Jean Giono tranformou uma peripécia no jornalismo em fábula antológica Matheus Lopes Quirino Em tempos de desmate e desmonte de florestas, as histórias que sobressaem são aquelas sem didatismo ou goodvibes. Muitas vezes surgem em meio ao caos, como uma semente aleatória depositada pelo vento vadio em solo infértil, por algum acaso, uns chamam de Deus, outros de destino, outros de natureza, surge uma bela árvore, pronta a dar flores e frutos em meio a agruras e intempéries incontáveis. Esses escritos, muito particulares, nascidos do aleatório, ganham espaço e vão se arramalhando como chuchu em cerca, passam a converter adeptos e leitores pelo simples ato de se multiplicar sem precedentes, como se nossos olhos vidrassem em suas fórmulas magnificas de se aprumar em qualquer fragmento de esperança na humanidade, mesmo em tempos tão difíceis. Este é o caso de O Homem que Plantava Árvores, fábula do francês Jean Giono. Uma fábula, como toda fábula excepcionalmente curta, de rara beleza, com uma história tortuosa, mas nem por isso menos formidável. Giono, já romancista aclamado, recebeu um convite da revista norte-americana Reader’s Digest em 1953 para escrever sobre o encontro com a pessoa mais espetacular que já conheceu. Fato histórico, verídico, frisava a publicação. Aos anseios do escriba, dois dias foram necessários para contar a história do homem que pastoreava suas florestas. Acontece que o checador de fatos, esse jornalista que nunca esteve tão na moda quanto hoje, por algum acaso não achou os registros do pobre sr. Bouffier, personagem da fábula, em lugar algum. Tampouco fontes que confirmasse a história de Giono. O texto foi derrubado, tendo saído só um ano depois, em 1954, na revista Vogue. Uma década mais tarde, O Homem que Plantava Árvores era um plaquete não só lido em toda França como traduzido em várias línguas. Evidentemente, tratando-se de boa ficção, a inspiração viera do pai do escritor, um sapateiro que andava com bolotas de carvalho nos bolsos, plantando abetos compulsivamente na região de Marselha. Bem maior fez Giono, beliscado pelo jornalismo, assassinou-o por bom motivo e se tornou imortal. Publicado por Matheus Lopes Quirino Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino
Texto originalmente publicado em Revista Fina