foto/acervo pessoal

“Poética do nada” é aposta de Marina Rima em seu livro-mosaico

André Vieira

Tal como as semanas que passaram sem resposta no Messenger, não é fácil, em primeiro relance, se conectar à poesia de Marina em seu novo livro Peças avulsas num jogo de tabuleiro, publicado em novembro pela Urutau. Embora seu nome artístico possa sugerir uma relação íntima com as palavras ou jogos mirabolantes com a linguagem, a Rima propriamente dita talvez seja a última coisa que podemos encontrar em 116 páginas de papel pólen sobre  balizadas poéticas neoconcretistas. Ou, talvez a peça mais pendente no tabuleiro.   

 Marina Rima, ou Marina Ribeiro Mattar segundo o escavador do Google, não procura entregar o jogo logo de cara. A despeito de métricas, ritmos e temas que podem se mostrar simples e prosaicamente desconexos entre si, como numa coletânea de poetas talentosos, mas pouco entendíveis — e ainda sim, romantizados. Com Marina é diferente. Há ali um ritmo subjacente, quase como uma melodia espanhola ou valsa austríaca que repousa nas peças das casas pintadas e mexe fundo na caixa de partes. Como em um concerto, recolhemos cada fragmento de imagem, som e emoção e os ressignificamos nos movimentos vivos dos braços de poeta. No entanto, para Marina, seu arabesco tenha outro significado: “eu aprendo para esquecer/(desde o ponto de partida)/ para que o jogo baste/escrevo para perder”.  

Lançado em novembro, o novo livro de Marina pode ser encontrado aqui.

Tabuleiro

O encontro da Fina com a poeta se dá em uma sexta-feira ensolarada. Do lado mineiro da tela, encontramos xícaras de café vulcânicas iluminados por persianas abafadas. Quando Marina aparece na tela e nos vemos pessoalmente, o que chama atenção, além de seus longos cabelos pretos “na moda da pandemia”, como explicaria mais tarde, é sua obra baseada no término: “meus três primeiros livros foram produzidos enquanto eu vivia um processo de fim de relacionamento, então acho que isso se reflete na poesia”. Para autora, a influência da “trilogia do término” é bem perceptível na construção do Peças, por mais que aborde outros temas: acho que a matéria-prima é a mesma. Ainda vejo muito daquela escrita [de suas obras anteriores], embora com características muito próprias, poemas muito mais longos, temáticas mais redondas”, conta.                  

Incorporando cartas, memórias, desabafos e lembretes, as peças dispostas sobre a mesa dizem muito menos sobre si próprias do que sua relação ao conjunto. A poesia é traçada entre as coisas ao seu redor e ao momento em que elas foram retiradas do cotidiano. Por entre cinco capítulos curtos, elaborados de maneiras e estilos diferentes entre si: casas ruidosas da infância, métodos líricos de fazer um filme e meinhas Nike confortáveis ganham protagonismo na coleção de prosaicos da autora. “Seria essa coisa de descontinuidade e continuidade se abraçando, bem a cara do movimento negativo da escrita, nos moldes do Augusto [de Campos]. Uma negação que propõe um talvez, [que] clama pelo sim”, observa Marina, enquanto reabastece a caneca vulcânica para mais um gole.       

Poema que integra o capítulo “Poema para meus 30 anos”.

Jogo

A poeta desconversa sobre a origem de seu trabalho ser intimamente ligada ao signo e à palavra, ou como gosta de dizer “[às] nuvens de pensamentos em espanhol, inglês, português e muchas bezes em alemão”. Por outro lado, Marina concorda que seu trabalho se arquiteta por meio de repetições exaustivas, em temáticas que lembram a espiral de um caracol que se alonga e refaz a cada reexame do olhar, “eu me apego muito a alguns temas.  Nesse tabuleiro há uma busca incessante pelo tempo, pela casa da minha mãe, pelo silêncio rondando as coisas intransponíveis do nada. São coisas que eu fico bitolada e fico retrabalhando em cada produção minha, sem um fim premeditado”, comenta procurando as palavras exatas.                                              

Um leitor experiente pensaria que ao ler Peças avulsas num jogo de tabuleiro, teríamos um texto hermético, costurado pela linha imaginária do olhar coberto por tonalidades cotidianas. Mas cometeria um erro. À moda dos modernistas, Marina não tem medo de dar palanque a seus ídolos ou de entrar na ciranda da “competição de atenções algorítmicas” com a qual convivemos. “Esse livro é uma aspiração a John Cage, Georges Bataille e Yoko Ono. Falo isso no prefácio, porque preciso ser honesta com meu leitor. Na minha poética, essa transparência e essa maneira de tratamento fazem todo sentido pra mim e pra quem me lê.”, acredita. Em tempo, a poeta escreveu quatro livros sob o pseudônimo de Marina Rima, embora seja doutoranda em estudos literários na Federal de Minas Gerais.   

Excerto da primeira parte do ” poema para (tentar) entender o silêncio”

 “[Pra mim] É um meio válido para experimentação, até pra não se sentir pressionada de qualquer coisa, sabe?”, responde Marina quando pergunto sua opinião sobre o grande número de operários da palavra que vivem dentro dos sapatos de outros autores consagrados. Em seguida, Marina questiona isso teria alguma coisa a ver com a fato dela escrever sob o título de Rima. Nego qualquer relação desproposital e amplio a pergunta sobre “poetas de Facebook e Instagram” que se tornaram mais comuns na pandemia. Marina é enfática, “é real que isso acontece, o problema é que também não podemos julgar aonde cada um se coloca e como a produção de cada se manifesta. Tipo, cabe a gente criticar quem gosta de Rupi Kaur ou se colocar como a ‘bloguerinha’ da poesia?”, comenta.                  

 Aproveitando a deixa, um “e você, seria uma bloguerinha?” paira pelo ar entre São Paulo e Minas. Um “uai” sonoro ecoa se faz ouvir até as paredes paulistas deste lado da conversa, seguido por um: “Pelamor, se eu for pra reconhecida por algo, que sejam por minhas letras e não minha carinha de Maitê Proença, a eterna musa das capas de estantes”.

Continuação do ” poema para (tentar) entender o silêncio”

Avulsos

Uma hora e meia de conversa depois sobre arquitetura contemporânea, a vida como expatriada em Minas na pandemia e frases boas de demais para ainda não terem sido escritas, “Tem vezes que eu penso num verso; numa estrofe e falo ‘pô não é possível que ninguém tenha pensando nisso!”, daí quando eu vejo que eu sou a única detentora daquelas palavras, eu desanimo”,  Chegamos à pergunta final da entrevista, do porquê o livro ter como capa uma grande árvore, cujos galhos são habitados por bodes e cabritas em tons de marrom sépia.                                                                                     

Marina não titubeia, “ué, é um pé de cabra, né? Acho que combina um pouco com o poema da minha mãe. Tenho uma amiga psicóloga que trabalhou essa imagem em algum lugar e me disse que ela representa pessoas indecisas, gente que não toma posição em nada, vivendo em cima das copas”. A resposta refratária não satisfaz a dúvida. Mesmo servindo como “ilustração” para o poema Cabra-doméstica ou como atrativo para que um possível leitor conheça a obra, a imagem não agrega nada aos poemas, cartas e conselhos que Marina trabalha em Peças. Ao contrário, faz com que a gente coce a cabeça e se pergunte “mas que diabos”?     

 De maneira clara, a poeta esclarece, “Essa foi a primeira coisa eu falei pra editora. Não fazia — como ainda não faz — sentido meu livro ter como capa um pé de bode!”, confidencia. “O dilema, basicamente era o seguinte: ou eu escolhia essa [capa] rosa, florida com uns bodes xis, ou eles escolhiam uma capa preta-cinza, tão chamativa quanto aquela do meu segundo livro”. Naturalmente, o assunto se desdobrou para o sucesso editorial de Estaca Zero & Outros desvios de percurso (ed. Urutau). A negação veio de cara, “Que nada! O meu primeiro livro [Vênus partida ao meio (ed. Patuá)], vendeu feito pão quentinho se comparado aos primeiros”, desabafa Marina explicando a lógica entre capa-vendagem. “Meu primeiro, que participou dessas feiras de novos autores, tinha uma capa vermelha, de tom forte, e esgotou em poucos dias, um babado. Já no [caso do] segundo, tenho edição dele até hoje em casa”, explica com leve tom de resignação.                                                                                 

Na cercanias dos muros, cabritos e bodes.

Por fim, com um sorriso amarelo, Marina resume, em uma frase, o dilema da sua produção e da maioria dos poetas independentes: “Viu?, É bom apostar nos bodes”.