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| Fotografia da minha autoria |
Tema: Escreve uma história baseada no título
da tua música preferida
A porta bateu devagar, numa despedida momentânea. Era o final de mais uma tarde banal, mas a mesa redonda do Café 77 já estava de braços abertos para nos receber. Não importa as voltas que o dia nos obrigue a desconstruir, porque tudo serena quando nos reuníamos ali. Acho que ninguém compreendia esta nossa obsessão pelo gosto do café antes do jantar, mas eu creio que eram as conversas descomprometidas - e a presença de cada um de nós - que tornava este ritual mais saboroso.
Era o momento em que nos libertávamos de tudo. E não havia dia em que não descambássemos para diálogos patéticos. No entanto, também éramos capazes de manter um tom sério, se as circunstâncias assim o exigissem. Mas estávamos tão confortáveis em grupo, que nos permitíamos satirizar cada tema. Se aquelas paredes falassem, talvez nem todos estivessem preparados para escutar os nossos devaneios. Porém, partilhávamos uma linguagem comum. E entendiamo-nos na perfeição, sobretudo, por termos crescido a partilhar casas, sonhos e desgostos. Traçamos muitos planos sentados naquelas cadeiras de madeira. Lambemos feridas. E consertamos corações partidos. Porque permanecíamos juntos, unidos por uma promessa que ninguém mencionou em voz alta, mas que todos cumpríamos, sem vacilar, de peito aberto.
Recordo-me que uma das últimas partilhas foi sobre casamentos. Do alto dos nossos 19 anos, discutíamos rituais para manter e para descartar. Com tantas certezas, até parecia que estávamos a organizar algum.
Benedita: No meu casamento, não vou querer a Marcha Nupcial.
Marta: Então?
Benedita: Vou entrar com a Nunca me Esqueci de Ti, do Rui Veloso.
Luís: Oh! Claro. E tu que não escolhesses o Rei do Rock Português.
Rimo-nos. Mas o melhor veio logo de seguida.
Pedro: Quando fosse para dizerem o sim, o noivo cantava um não prolongado e, depois, continuava com o resto da letra e aceitava.
Benedita: Dispensava o ataque de pânico pelo meio, mas teria graça.
Afonso: Ou, então, quando o padre perguntasse se alguém se opunha, um dos convidados levantava-se e fazia o mesmo número.
Lara: Isso era hilariante.
Benedita: Vocês são horríveis! Querem mesmo que eu sofra.
Pedro: Tu é que escolheste a música.
Entre gargalhadas e olhares cúmplices, fomos acrescentando alternativas. Só não esperávamos que a vida nos virasse do avesso.
Hoje, há um espaço vazio naquela mesa. O luto parece ainda distante de sarar, mas mantemo-nos amparados nos braços uns dos outros, recordando-te em histórias, em trejeitos e em silêncios - que, eventualmente, deixarão de magoar. Contudo, faz-nos falta escutar a tua voz melódica, capaz de nos salvar do abismo. E continua a fazer-nos falta ter-te ali, na terceira cadeira a contar da porta, porque era o lugar onde o sol fazia sobressair os teus olhos cor de mel.
Talvez não venha a casar ao som de Rui Veloso. Mas tu continuas a ser «a brisa onde adormeço». E, não, nunca me esqueci de ti. Como poderia?
