Bom dia, meu povo e minha pova lindus deste Brasil varonil!

São sete e meia da manhã: o pão já foi pra torradeira, a água de passar o café tá chegando no ponto, o sol resplandece para um novo dia — tá bom, acho que já deu se deu de ser tia, né? Está no ar a coluna Periscópio, seu encontro marcado com principais programas culturais, d’grátis, para sua semana quarentenada.

Neste exato momento, segundo o glossário impróprio de todas as coisas inúteis, um avião rasante passa por campos quasevirgens de arroz não, um amolador de facas e um vendedor de gás passam arrancado o silêncio de novas noites perturbadas por sonhos insones e um besouro alça voo em direção ao infinito de seus olhos caleidoscópicos:

Alguém envia uma carta a uma pessoa errada,  

um homem se diz coberto de razão, embora seja

repleto de mentiras

e palavras

extraviadas;

Ai de mim, ai de mim, ai de mim, caro leitor! Por essa busca quase náusea por algo que possa fazer qualquer sentido? De que ânsia anseia a língua que nos desnorteia? Ser produtivo em nossos afazeres domésticos? Se reativo ao caos e ao fogo que emanam de nossa justiça social dos seguranças sanguentados e tanques de oxigênio à mostra?

Na falta de uma única perspectiva, só nos resta pegá-las emprestada dos outros, fazer com que as peças se encaixem e o quebra-cabeças volte a fazer qualquer sentido nos mapas da nossa cabeça: ou seria nos devaneios que criamos de nós de mesmo no momentos que vamos molhar a cara do despertar e encarrar a vida-pela-frente, enquanto nossos sonhos se alongam dentro da cachola — só sendo muito doido pra entender que tudo isso faça qualquer sentido.

Mas vem comigo. Vem. Respira. Estamos juntos. Vamos superar mais um find perdido e mais uma jornada árdua que se desenlaça no descortinar de pálpebras e reanimar do corpo. Eu acredito em você. Não importa se uma semana começa com o café, o chá o desespero completo que você toma com uma xícara de ansiedade.

Só por se animar em sair da cama e sorrir pro cachorrinho ou pro gatinho logo no alta da alba é o primeiro sinal que existe esperança mesmo frente ao eterno inverno.

Uma ótima semana pra nóis.

Beijo.

Vidas negras importam

Desde sexta-feira (20) passada vem rolando o festival Feira Preta, iniciativa realizada 100% on-line e gratuita em múltiplas plataformas (TikTok, Instagram, Youtube, Spotify e dentro) pelo Instituto Moreira Salles, juntamente com seus parceiros-apoiadores British Council, Mercado Livre, IBM, GNT entre outros.  

Ancorado conhecimentos, práticas e experiências diversificados de negros, negras e negres nesta terra continental chamada Brasil, o festival concilia atividades culturais e saberes ancestrais de seus participantes, com a sagacidade e astúcia empreendedora, cada vez mais fundamental para agentes culturais e pequenos produtores em tempos de Covid.

Na tardinha de ontem, foi exibido no canal da Feira o documentário Quebradeiras de Coco — rede Mulheres do Maranhão que conta da empreitada de mais de 300 mulheres, entre empreendedoras, coletoras de coco, artesãs e vendedoras  do ciclo econômico do babaçu na Estrada de Ferro Carajás, que liga o sudeste do Pará ao estado de São Luís do Maranhão.

Alguns eventos interessantes para ficar de olho hoje são: às 18h, no Youtube, o painel sobre a estética do afrofuturismo, movimento pouco conhecido no Brasil, mas cuja influência é vista no filme Pantera Negra e no último álbum da Beyoncé, Black is King; e no TikTok a partir das 19h, uma conversa cabeça com Pablo Nunes (cientista político pela IESP-UERJ), Fernanda Rodrigues (membro do Centro de Estudos e Pesquisas em Direito e Internet na Federal de Santa Maria) e Pedro Monteiro (mestrando em Direito) trata das consequências e repercussões da diáspora africana em terras brasileiras.

Já no decorrer da semana, recomendamos: na quarta-feira (25), às 19h o debate entre cozinheiros, chefs e um jornalista sobre a gastronomia africana vinda para nossa terra; já pro “sextou”, teremos o primeiro episódio do podcast Preta na Moda, programa que põe a perspectiva negra sobre o mercado da moda e seus meandros no dia a dia.  

Arco do Triunfo

Símbolo das épocas ricas & pobres que vivemos por essas terras fluminenses, paulistas, mineiras, nordestinas e centro-oestense de espelhos d’água de Brasília, a exposição Infinito Vão: 90 anos da Arquitetura Brasileira retrata o que melhor se passou por essas bandas modernistas e pós-modernistas, desde 1922.

Reunindo obras e projetos arquitetônicos de 96 figuras providenciais de nossa história sobre ferro & aço, como Lina Bo Bardi, Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Vilanova Artigas e Paulo Mendes da Rocha, a exposição ocorre na unidade da Sesc na 24 Maio, localizado no centro histórico e projetado por Mendes de Rocha como um prédio a “agradar ninguém, mas a todos de uma vez só”.

A novidade do evento está em seus núcleos expositivos. Locais específicos na cronologia da arquitetura que além de apresentar as principais ideias e estruturas dos prédios e obras públicas, reúnem o contexto socio-cultural que vociferava país afora: singrando as canoas indígenas, nosso sincretismo religioso e nossa busca por um herói puro-sangue até o período austero dos tempos de concreto e aço da ditatura militar e a esperança na contracultura.

De curadoria de Fernando Serapião e Guilherme Wisnik, a mostra foi originalmente planejada para acontecer entre abril e julho deste ano, mas seguiu adiada por conta da pandemia da Covid-19, esperando o melhor momento pra reabrir as portas ao público, juntamente acompanhado das novas medidas sanitárias.

Com inauguração nesta quarta-feira (com os ingressos esgotados), a exposição tem duração de cerca de uma hora e é preciso fazer o agendamento on-line antes de ir correndo em direção ao centro. Como sempre, pessoas do grupo de risco ou que tiveram febre, alta de ar e perda do olfato nos últimos dias estão desaconselhadas a visitar a mostra.    

Quando? De terça a domingo, 15h30, 16h, 18h e 19h30 até 11/12.

Onde? 5 º andar, Sesc 24 de Maio

Preço: gratuito.

Para agendar visita: clique aqui.

É só uma piada

Feio, gordo, baranga, mocreia, puta. Quantas vezes vocês já sentiram mal por terem a reputação — pra não falar, o dia — arruinado por um comentário maldoso ou um papo acalorado entre amigos que sempre desbancava pros preconceitos menos inteligentes e piadas mais sem gosto? “Mas por que que cê tá assim, é só uma piada….”

É tentando achar uma resposta ao limite, ou melhor, à origem da comédia e da piada que Pedro Arantes, roteirista e diretor brasileiro, propõe o documentário O Riso dos Outros, meia-metragem que reúne diretores, atores, escritores, políticos, militantes políticos e, claro, comediantes pra falar sobre as características próprias do humor e seu espelhamento na sociedade.

Produzindo lá no distante ano de 2012, o documentário parte do grande boom da comédia standup para compreender qual é a voz do “alvo” das piadas, muitas vezes sem nenhum direito de resposta. Em seu jogo cênico e matemática específica, fica difícil estabelecer qual é o limite do humor, muitas vezes tênue, no entanto numa piada uma coisa sempre é certa: o debochado sempre fica fora da graça.

O grande trunfo do O Riso dos outros é traçar uma linha narrativa firme, atando as falas, muitas vezes arreflexivas de grandes vozes do humor brasileiro (Rafinha Bastos, Fábio Rabin, Maurício Meirelles, Danilo Gentili entre outros) às reflexões de pessoas que muitas vezes não vivem de humor, mas possuem uma visão clara  quanto sua importância em desmontar ou ressaltar estereótipos.

No fim, a risada e euforia são parâmetros da nossa própria sociedade: nunca riríamos da orientação sexual ou das crenças de outra pessoa se não as achássemos tão diferentes — ou às vezes inferiores — das nossas.

Onde? On-line (cliche aqui.)

Preço: gratuito.

Égalité, fraternité, fragilité

Na esteira furiosa chamada governança global, posta às luzes quando o preço do papel higiênico subiu, houve um aumento substancial no número de pessoas assistindo BBB (me julguem) e os jogadores e discípulos de dinizmo finalmente encaixaram uma boa sequência de jogos (embora tenham empatado com o Vaxxco ontem à tarde), o festival Varilux, juntamente com a Folha de S.Paulo propõe a exibição e debate do documentário O Capital do século 21.

Inspirado no best-seller do economista mundialmente renomado de mesmo nome escritor por Thomas Piketty, o longa faz uma retrospectiva dos 400 anos que antecederam nossa época, colocando através de entrevistas e depoimentos as perspectivas do sistema econômico dominante no planeta e suas facetas políticas, sociais e históricas representadas nos dias de hoje.

Os primeiros trezentos inscritos no site da Folha poderão assistir na terça-feira, entre 19h e 23h o documentário que tem duração de uma hora e meia. Azarados que não forem selecionados pelo algoritmo preciso, têm a chance de ver o longa nas sessões presenciais pelo buscador do site, que seguem à risca dos protocolos sanitários.

Felizmente, curiosos pela mudança de comportamento presente no capitalismo do séc.21 poderão acompanhar o debate sobre o filme e o tema na quarta-feira a partir das 20h em todos os canais da Folha.

Na mesa redonda — de nossas casas — a discussão conta com a presença ex-diretor de redação e colunista do jornal, Samuel Pessôa, Pedro Souza, pesquisador da diretoria de Estudos e Políticas Sociais do Ipea e Débora Freire, professora de economia da Federal de Minas Gerais. A mediação será feita pelo repórter especial Fernando Canzian.

Quando? Quarta-feira, às 20h.

Onde? On-line.

Preço: gratuito.

Como entrar? Clique aqui no horário do evento.