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“__ Você disse que tem um lugar pra ir.      

Ele balançou a cabeça. Tinha, sim. Ela não perdia por esperar. O melhor lugar o mundo, e não ficava longe. Ou melhor: ficava longe, sim. Muito, muito longe. Noutra dimensão, quase. Nem adiantava explicar que lugar era esse. Nem valia a pena. Ficava longe para ela, mas bem perto para ele. Como é que ela ia entender uma coisa dessas? Como, se nem mesmo ele entendia direito?

__ Que legal. Você não pode imaginar o quanto eu fico feliz com isso. Acho maravilhoso que você tenha um lugar pra ficar. De verdade.   

Ela não parecia feliz. Não mesmo. Mas ela nunca parecia feliz.

__ E onde é que fica esse lugar? Assim, eu não quero me intrometer e tal. Você não precisa me contar, se não quiser. Estou perguntando, só por perguntar mesmo. Porque a gente está sentado aqui fora, conversando numa boa. Não está?  

  Novo encolher de ombros.

__ Acho que sim.    

Por que ela nunca parecia feliz? Acariciava a mochila enquanto falava, olhando fixo para a frente. Era como se a televisão estivesse ligada na calçada defronte e ela ainda acompanhasse a telenovela.

__ Então. Você tem mesmo um lugar pra ir?    

Balançou a cabeça de novo, um certo nervosismo.

__ Eu só não descobri ainda onde ele fica, disse. Era o melhor que podia fazer. Assim, eu não consigo explicar direito.”  terra-de-casas-vazias

(uma versão condensada da resenha abaixo foi publicada na Ilustrada, da Folha de São Paulo, em 13 de abril de 2013: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/103502-narrativa-mostra-falhas-mas-comprova-evolucao-de-escritor.shtml)

I

Nas suas Memórias (penso especialmente em Na força da idade), Simone de Beauvoir relata uma década de luta e de manuscritos postos de lado para chegar a seu primeiro romance digno de ser publicado (que calhou  ser o melhor de quantos escreveu, A convidada[1]).

Se esse fosse um parâmetro para os jovens escritores! Pois o que vemos (com as exceções de praxe) é o açodamento de publicar, de ter uma “carreira”, antes de se ter minimamente algo a ser chamado de obra.

O caso de André de Leones é típico. Com pouco mais de 30 anos, lança seu quinto livro, Terra de Casas Vazias (aliás, numa edição caprichada da Rocco, com bela capa[2]). Segundo a premissa que norteia esta resenha, seria melhor que os anteriores permanecessem na gaveta (eu sei, eu sei que Hoje está um dia morto foi premiado num concurso, mas isso não  muda a minha perspectiva, só me faz cético com relação a  concursos, prêmios e bolsas literárias, a julgar por alguns textos que andei lendo recentemente).

Assistindo a entrevistas  em que ele mostra tanto empenho e seriedade (como resultado de uma entrevista, com Maurício Melo Jr., li a coletânea Paz na Terra entre os monstros e Hoje está um dia morto; apesar de não ter gostado muito, alguns anos depois, novamente devido a uma entrevista, li Como desaparecer completamente; e uma entrevista, novamente com Melo Jr., criou para mim uma certa expectativa com relação a esse Terra de Casas Vazias porque ali ele falava de seu encontro com escritores que nunca lera antes, Henry James e Tolstói[3]), custa crer que desse compromisso todo com o ofício tenha saído uma ficção tão dispersa, que vai para lá e para cá sem se fixar em nada, na qual os personagens parecem todos iguais e nada é aprofundado[4].

Hoje está um dia morto e Como desaparecer completamente não passam de meros esboços, etapas ainda toscas de um caminho e que vieram à luz por falta daquela atitude autocrítica beauvoiriana[5].

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II

Terra de Casas Vazias é uma evolução. Em cinco partes de cuidadosa carpintaria narrativa[6], acompanhamos uma ciranda de lutos, de ausências, de impossibilidades: o casal Teresa-Arthur perdeu o filho, a esposa de Aureliano, Camila, sofre degeneração muscular, Marcela teve um colapso mental. Alguns entregam os pontos (a madrasta de Aureliano e Marcela se suicida), outros são mais teimosos, como a mãe, Isadora, grávida com mais de 50 anos, depois de um caso passageiro com um malandrão estrangeiro.

Leones encontra finalmente o tom para o exercício romance-roda-de-personagens, uma gravidade que poderia fazer dele, caso aprofundada, um Cornélio Penna para o século XXI (pelas referências religiosas, pela atmosfera de estagnação, decadência e inércia, lembrei-me, durante a leitura, de Fronteira e especialmente de Repouso), e que fugira das suas mãos na sua tentativa frustrada-frustrante de fixar os “amores expressos” de vários caracteres, em Como desaparecer completamente.

Há algumas cenas realmente  muito boas (no final da terceira parte, a melhor, uma conversa entre o Arthur-menino e a mãe, quando ele anunciou que iria embora de casa… aos seis anos!; de passagem, gostei muito dos personagens maternos: tanto a mãe de Arthur quanto a de Aureliano estão entre as boas sacadas do romance[7]). E se há um quê do cansativo modismo dos enredos “seis graus de separação”, as movimentações entre Silvânia, Brasília, Goiânia e São Paulo se justificam plenamente.

O calcanhar-de-aquiles é a desastrada solução de fazer a narrativa desembocar em Israel, sem maior contribuição à trama ou aos personagens, apenas porque atualmente até os romances têm de globalizar-se. Isso me trouxe à memória as palavras do velho e bom François Mauriac: “Alguns confrades me contam que escolhem, para moldura do romance que estão a meditar, alguma aldeiazinha que desconheciam até então, e que vivem num hotel pelo tempo necessário à composição do livro. É justamente disso que me sinto incapaz. Não serviria de nada estabelecer-me, mesmo que por um longo período, numa região inteiramente estranha. Nenhum drama pode começar a viver em meu espírito se não o situo nos lugares em que sempre vivi.”

Mesmo com as ressalvas, pode-se dizer que agora sim André de Leones estreou na literatura.

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ANEXO- TRECHO ESCOLHIDO:  

“Arthur não entendeu de imediato por que uma mãe precisaria de um tempo sozinha. Até onde sabe, mães não são feitas para ficar sozinhas, elas têm filhos e por isso são chamadas de mães, sozinhas não são nada (…) Ele tentou imaginar uma situação em que sua mãe quisesse ficar um tempo sozinha, mas não conseguiu pensar em nenhuma. Então, pensou que tinha muita sorte e Aureliano, muito azar. Sentiu pena dele da mesma forma como sente agora ao ouvi-lo repetir:

__ Meu pai foi embora.

__ Eu sei, diz Arthur, Minha mãe me contou.   

Aureliano olha para ele com alguma surpresa, como se não esperasse que outra pessoa além dele, da mãe, das irmãs e do pai (Meu pai foi embora) soubesse o que aconteceu, o que está acontecendo.

__ O que foi que a sua mãe te falou?

__ Isso. Que seu pai foi embora.

__ Ela não falou por quê?

__ Não.

__ Foi porque minha mãe mandou.

__ Sua mãe mandou o quê?

__ Meu pai embora (…) Minhas irmãs ficaram chorando. Eu não chorei nada. Nadinha mesmo. Nem um pouco.

__ Onde é que elas…

__ Minhas irmãs? A Maria Fernanda foi pra casa da minha tia e a Marcela ficou com a minha mãe. A Marcela é bem pequena, chora o tempo todo. Chorou sem parar quando a minha mãe mandou o meu pai embora. A gente achou que ela não ia calar a boca nunca mais.    

Arthur não imaginava que algo do tipo fosse possível, a mãe mandar o pai embora. Tinha visto a mãe correr com uma ou outra empregada, essa não trabalha direito, aquela vive quebrando as coisas, acho que a outra está nos roubando, mas jamais pensou que fosse possível a mãe despedir (seria essa a palavra?) o pai, tanto que:

__ Por quê?     Precisa ouvir o motivo. Precisa estar preparado. O mundo cada vez mais estranho e escuro. Por que uma mãe faria uma coisas dessas com um pai?”

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[1] Mais tarde, como sói acontecer, foram publicados alguns desses “rascunhos de romance”, com o título Quando o espiritual domina,e eles não são nada ruins; pelo contrário, me parecem acima da média (Beauvoir os escreveu durante a década de 1930, quando ainda estava na faixa dos 20 e poucos anos). É evidente que parto do princípio de que ela era uma grande escritora. Como disse acima, A convidada pode ser considerado o melhor dos romances beauvoirianos, porém–à exceção do segundo, o mais problemático, O sangue dos outros–todos os posteriores são do mais alto nível: Todos os homens são mortais, Os mandarins,  As belas imagens.

   Também é preciso matizar, de certa forma, a questão da autocrítica: havia, é claro, e muito forte; mas a recusa de alguns leitores de editoras também teve o seu peso. É preciso lembrar que, aos 20 e poucos anos, Simone de Beauvoir não era a figura importante que seria no pós-guerra.

[2] Leones tem sorte: as edições da Record para Hoje está um dia morto  & Paz na Terra entre os monstros também foram bem-cuidadas.

[3] Só nunca consegui me animar a ler o seu livro anterior, Dentes Negros, pela saturação total com essas distopias e cenários pós-apocalípticos, a não ser que seja um A estrada, de Cormac MacCarthy.

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[4] Não resisti, nesta passagem, a fazer uma brincadeira com um trecho do próprio André de Leones, em Terra de Casas Vazias. Em meio a uma conversa entre Marcela, que é escritora, e sua madrasta, Idila (cuja idade é bem próxima da interlocutora), na página 221 lemos: “…dizem que o livro é disperso demais, que eu vou de lá pra cá sem me fixar em nada, que os personagens parecem todos iguais, que eu não me aprofundo nada, enfim, que eu não sei escrever direito. Talvez eu não saiba, ou talvez eu não seja o que eles esperam que eu seja.”

Apresentando seu romance, o autor goiano afirma:

“…eu já não suporto histórias ´redondas´, que trazem uma conclusão incontornável (…) O que não é contado ilumina o que é contado.    Assim, Terra de Casas Vazias é formado por cacos de histórias ou, melhor dizendo, por uma série de momentos que dizem algo (jamais ´tudo´) sobre esses personagens. É um romance incompleto sobre pessoas incompletas. Não há a mísera intenção de abarcá-las em sua ´totalidade´. É mais uma tentativa delicada de aproximação e entendimento.”

Oxalá a realização fosse tão bonita quanto a explanação.

[5]  A leitura de Hoje está um dia morto (2006) vale basicamente por alguns capítulos no final, em que o até então intolerável casal de personagens que dominava a narrativa, Jean e Fabiana, é visto por outro casal, Alanis e Daniel, e este tem um colóquio fugaz mas revelador com Fabiana.

Gosto da estrutura de Como desaparecer completamente (2010), porém me irritam aqueles parágrafos curtocircuitados, auto-implosivos, que só dão um tom modernoso, sem acrescentar muito à atmosfera do livro ou à sua apreensão daquela roda de personagens:

“Olha para ele. Não sabe. Realmente não sabe o que foi, o que dizer. Iluminação. Ele dentro dela (o quê?)oito minutos atrás. Olhos nos dela enquanto. Olhos, e ela (aquela iluminação) tipo: Quem é? Ou: Esse cara, quem? Ou: Como é que esse cara veio parar aqui? Ou: coisaqueovalha.”   

Esse vezo irrompe vez ou outra em Terra de Casas Vazias:

“Covarde, ele pensou. Filha da puta. Covarde filha da puta. Filha da puta, covarde de merda. Que se foda. Vai se foder. Vai se foder. Vai tomar no cu. Porra. No cu. Que se foda, que se. Porra.”

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[6] Pensando na entrevista a Melo Jr. em que Leones fala sobre suas leituras recentes de romancistas oitocentistas, ao ler o romance me perguntei se ele também já tinha lido The Golden Notebook. No romance de Doris Lessing, há toda uma parte “Mulheres Livres”, a qual entrecorta a narrativa inteira, que é introduzida por vinhetas que descrevem  sucintamente o “principal” das ações ali narradas. A autora inglesa disse posteriormente que ali havia um comentário sobre o romance de fatura tradicional. Na abertura de cada parte do seu romance, Leones faz o mesmo, e parece ser também um comentário do tipo, uma alusão a suas leituras dos romanções do tipo Guerra e Paz. Um exemplo:

“A terceira parte de Terra de Casas Vazias é intitulada Presente Contínuo. Ela se passa em meados de 1986. A pequena cidade de Silvânia, no Centro-Oeste do Brasil, é o cenário. Arthur vive ali com seus pais e recebe a visita de Aureliano.”

[7] Há também a mulher de um senador, que aparece na primeira parte, e que apesar de ter uma rápida participação, é  bem interessante. Pena que não se pode dizer o mesmo de algumas protagonistas, como Marcela e Nathalie, as mais chatas e opacas do livro.

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