Fotografia da minha autoria

«foste feita por gente crente noutra madrugada»

o piano continua a tocar e eu encostada à porta

há um certo conforto na reverberação

como se de um eco de cristal voltássemos ao presente

como se nos libertássemos da dormência que é

fechar os olhos e ficar apenas a escutar aquela melodia

que não compreendemos mas que nos norteia

desprendo-me do lugar onde fiquei

e avanço pela escadaria de madeira, antiga

em suplica como o meu peito ardente

tentando chegar ao topo da colina imaginária

onde de uma nuvem negra avisto o céu inteiro

o mundo não me estava a pesar

mas o silêncio gritou da sala

e a pergunta que ninguém fez desabou nos meus ombros

e eu que sei que a maldade não veio por arrasto

que veio só para tornar a distância leve

fez ricochete, relembrando o quanto tudo ficou parado em mim

o mundo não estava a pesar

mas esta narrativa de pontas soltas

fez-me afundar

que nem peso morto

entardecendo ao lado de um piano que agora

se fez mudo sem amparo

mas chegou a hora