Pés na Terra, cabeça em Saturno
Geografia, Astronomia, Memórias de infância, Natureza, Reflexão existencial
Saturno/Fapesp (reprodução) Eu disse: “a Terra”. Depois de muitos já terem dito Marte, Júpiter, Saturno (majoritariamente) etc., ficou um silêncio de segundos. A professora me reprimiu: “que sem graça, a Terra!?” Gustavo Nagib*, Especial para Fina Desde criança, sou fascinado pelo espaço. Saturno, além de regente do meu signo, era meu planeta favorito. Quem não se impressiona pelos anéis?! Um dia, então, meu pai escreveu a uns amigos estadunidenses pedindo que mandassem um pôster de Saturno. A internet ainda não tinha chegado às casas da classe média. Demorou para chegar, mas os amigos mandaram. Eram dois pôsteres: um de Saturno e outro de um astronauta da Nasa em missão espacial. Ao fundo, tinha a Terra, com o seu azul incrível. Único. “Azul Terra”. Foi nos anos 1990 que me dei conta de que meu planeta predileto era a Terra, que, por sinal, não rege signo nenhum. Estava na terceira série. A professora de História estava explicando algo sobre o universo quando então pediu para que cada um dissesse qual era o seu planeta favorito. Eu disse: “a Terra”. Depois de muitos já terem dito Marte, Júpiter, Saturno (majoritariamente) etc., ficou um silêncio de segundos. A professora me reprimiu: “que sem graça, a Terra!?… A Terra não vale”. Para mim, a Terra tanto valia e vale que começava a se definir, ali, a minha escolha profissional. Não deu para ser astronauta nesta vida. Nem sei se queria. O que rola dentro da Terra ainda tem me interessado mais (ou não). Todo dia, penso que sou geógrafo. Que a Terra está em mim. E que eu estou nela… Mas deixemos de filosofia barata! Eu ainda vou ver a Terra de fora, quando for permitido o consumo do espaço – sideral – pela classe média. Risos. E a Lua, então!? A maior cúmplice da Terra! Delícia fascinante de ver no céu. Tristeza quando não a vemos. Já pude ver muitas coisas lindas. Não posso dizer qual foi a mais linda de todas. Ou quem. Risos. Mas, certamente, botar o olho no telescópio da Unicamp, lá no observatório de Joaquim Egídio, sem nenhuma pretensão, e de repente ver a Lua ali na minha frente… as crateras! As crateras, meu! Difícil de algo ser mais lindo que aquilo. A não ser a Terra vista lá da Lua. A natureza é infinita. Finitos somos nós. *Geógrafo, Doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e poeta. Autor das obras “Amar: verbo indefinido” (Mini, 2015) e “Agricultura Urbana como Ativismo na Cidade de São Paulo” (Annablume, 2018). Passa a escrever mensalmente na Fina.
Texto originalmente publicado em Revista Fina