Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Só ouço música em inglês. Isso mesmo! Just in english!

Não me venham acusar de não amar o meu país, de ser mais um alienado que ouve tudo que vem dos Estados Unidos ou algo do gênero. Em primeiro lugar, só ouço música boa. E não, Britney Spears ou Paramore não passam pelo meu crivo, nem nada que se assemelhe a essas aberrações, em nada diferente dos nossos pagodes, funks e “forrós modernos”.

Se o que eu quero for música boa, no Brasil tem aos montes, certo? Sem dúvida nenhuma! Temos grandes artistas, grandes nomes respeitados internacionalmente. Já os ouvi bastante e, ocasionalmente, quando cantam em inglês, eu os ouço. How Insensitive e The Girl from Ipanema, por exemplo, são fabulosos.

Por que tomei essa decisão tão radical?

É uma longa história (na verdade, nem é tão longa assim…). Quer ouvir? Não sei por que isso pode lhe interessar, mas já que prometi, aí vai:

Desde a infância sou apaixonado pela língua inglesa. Talvez isso tenha a ver com o fato de eu gostar muito de desenhos animados e também gostar muito de ler. Eu sempre achava estranho o fato de os desenhos serem falados em português, mas, quando aparecia o título na tela, estava sempre escrito em inglês. O mesmo ocorria quando os desenhos acabavam, ou quando aparecia algum texto incidental dentro do episódio. A partir de determinado momento, não lembro exatamente quando, sempre que aparecia alguma palavra em inglês, desafiar a mim mesmo a descobrir o seu significado. Isso virou uma regra, até chegar ao ponto em que eu já detectava, ainda criança, as traduções não literais que davam aos títulos dos desenhos, algo que muito me intrigava.

Assim fui crescendo, sempre o primeiro da classe em inglês – e um bom aluno de português, ressalte-se – e sempre ansioso por aprender mais. Em um tempo em que só se assistia a filmes dublados, eu já queria vê-los legendados, e, algum tempo depois, com o advento dos DVD’s, me aventurava a acompanhá-los com a legenda em inglês.

O que eu pretendia com tudo isso? Não sei. Apenas gostava da idéia de dominar outro idioma. Para mim, sempre se tratou de um grande desafio: queria ter a mesma fluência no inglês que tinha no português. Na verdade, acredito que era um pouco diferente: queria ter a mesma fluência no inglês que um inglês médio tinha.

Tornei-me adulto e já considerava meu inglês quase que impecável. Assistia a filmes sem legenda, apesar de ter certa dificuldade em diálogos muito rápidos. Eu era a referência no meu trabalho: queriam alguma tradução, nome de filme no original, um palavrão, o que quer que fosse, eu sempre sabia – ou quase sempre. Algumas vezes um de meus colegas vinha com “perguntas de bolso” só para me derrubar, o que me deixava ainda mais obcecado em aprender mais e mais sobre este tão belo idioma.

Há bastante tempo que só lia em inglês, uma forma de incrementar o meu vocabulário e acostumar meu cérebro a pensar em inglês. Isto se consolidou de tal forma que quando estou pensando, o faço em inglês!

Você deve estar pensando: esse cara vai me contar toda a sua vida? É essa a longa história? Então põe longa nisso…

Na verdade, fiz essa introdução porque ela é necessária para o que segue, que é o motivo para hoje eu só escutar música em inglês.

Eu sempre fui um cara tímido e muito, muito romântico. Vivia sonhando com encontros ocasionais nos quais eu descobria um grande amor (e era correspondido, é claro). Se estou contando esses detalhes da minha vida, é porque sei que você nunca vai saber quem realmente sou. Nem me interesso se esta vai ser a resposta mais criativa do concurso. Não quero vencer; apenas contar uma história verdadeira: a minha.

Como estava dizendo, por ser um cara muito sonhador e tímido, minha vida social não era muito agitada. Eu não saía muito com meus amigos porque sabia que eu não teria coragem de abordar uma garota, e não queria ser ridicularizado por eles. Quando eu pensava em uma boate ou um barzinho, imaginava que encontraria a “minha garota” por acaso, e começaríamos alguma conversa descompromissada, na qual descobriríamos diversos pontos em comum. Na hora de pedir uma bebida, pediríamos a mesma, sorriríamos meio constrangidos, mas felizes de vermos como éramos feitos um para o outro.

Eu sou sonhador, não estúpido. Sei que a probabilidade de algo assim acontecer é real somente nas comédias românticas. Na vida, é algo tão raro que nem vale a pena considerar. Por isso não ia a barzinhos ou boates.

Até que… Claro, você estava esperando este “até que”, pois ele é o motivo da história. Sei, é um clichê, mas aconteceu mesmo: um dos meus mais próximos colegas de trabalho passou em um concurso e iria sair da agência. Claro que organizaram uma festa de despedida para ele, e nem eu poderia me recusar a participar.

A festa foi na boate mais animada da cidade e, para variar, antes da data, eu havia imaginado mil histórias de possíveis encontros, mas, no fundo, sabia que nada iria acontecer.

Chegado o dia, uns dez colegas da agência foram se despedir do mais novo servidor público federal. Dentre esses colegas havia uma senhora que era meio que “mãezona” de todos, e que estava sempre participando de tudo, e sempre levava sua filha, uma tremenda gata, que todos na agência desejavam, mas que era comprometida com um advogado de família bastante influente. Ela (a filha) claramente esnobava a todos, e demonstrava que sabia que era desejada, o que deixava alguns bastante constrangidos. Poucas vezes me tinha dirigido a palavra, e posso dizer que, até ali, as experiências com ela não tinham sido agradáveis. Mal sabia que tudo isso iria mudar quando ela chegasse.

A mãe, que vou chamar de Raquel, chegou sozinha, para surpresa de todos. Ela se apressou logo em dizer que sua filha chegaria, é porque ainda estava na aula de inglês. O pessoal conversava, ria, alguns iam dançar, outros saíam para “azarar” as garotas, tudo como um encontro desses deve ser. Eu fazia questão de olhar para tudo com certo desprezo: não sabia dançar, não tinha coragem de “azarar” nenhuma garota. Apenas olhava e estudava o ambiente, querendo me convencer de que eu era superior a tudo aquilo.

Pouco tempo depois chega a filha de Raquel, que aqui vai receber o nome de Aline. Ela não chegou sozinha, entretanto, e aí reside toda a surpresa e a prova de que o improvável não é impossível, apenas improvável. Em sua companhia estava uma linda jovem, para usar um eufemismo. Sendo realista, ela era uma deusa, a criatura mais próxima da perfeição que meus olhos já tinham visto ao vivo. Todos na mesa – e até quem estava distante – voltou sua atenção para as duas jovens. Aline apressou-se a explicar que, naquele dia, eles receberam uma visita de uma jovem americana que estava de férias no Brasil. Elas logo iniciaram uma amizade e Heather, como vou batizar a minha amada, aceitou o convite de Aline de irem a uma festa com sua mãe.

Imaginem o meu estado de espírito quando ela contou toda essa história. Nos meus olhos um grande letreiro se acendia: O seu momento chegou!

O que poderia ser mais improvável que esta situação? Eu, apaixonado pelo idioma inglês, vou a uma festa de despedida de um amigo e, neste mesmo dia, a mais bela mulher do mundo resolve visitar a escola de inglês da filha metida da minha colega de trabalho, faz amizade com ela, e acaba indo à mesma festa que eu? Isso tinha que significar alguma coisa.

Claro que todos pensaram a mesma coisa – ou quase a mesma coisa que eu – pois, instintivamente, todos os olhares se voltaram para mim.

– Já temos um tradutor para ela! – gritou um dos meus mais animados colegas.

Imediatamente fizeram questão de me apresentar a ela como um especialista em inglês, e quando ela me perguntou seu eu iria ajudá-la a se comunicar durante a noite, minha voz quase que não saiu. Eu entendia cada palavra, mas as minhas não queriam sair. Respirei fundo, assumi a responsabilidade de mudar o meu destino naquela noite, e respondi, com toda eloqüência que me era peculiar:

– Yes, I’ll do my best for you.

Todos riram, especialmente ela. Seu sorriso quase me fez chorar… Eu já estava apaixonado.

Por cerca de duas horas fui a pessoa mais feliz que já existiu. Alice não era muito boa no inglês e Heather não sabia mais do que três expressões em português, logo, sempre que alguém queria se dirigir à minha amada tinha que falar comigo antes, e as palavras da minha amada eram levadas a todos pela minha boca.

Tudo ia muito bem, até que Victor teve a infeliz idéia de imitar os filmes americanos: ele foi até o dono da boate, explicou que estávamos ali para nos despedir de um colega e que queríamos fazer uma homenagem ao amigo cantando. O dono da boate entrou na folia e em questão de minutos o próprio Victor já estava soltando sua voz, cantando alguma música sertaneja de sucesso. Eu já estava nervoso de pensar que teria que cantar, mas eu sabia diversas músicas em inglês, e iria usar isso para conquistar de vez minha amada. Foi aí que a chamaram para cantar. Victor, é claro. Heather pensou um pouco e me disse: Há uma música que amo, mas que precisa ser cantada a dois. Você cantaria comigo?

Mais uma vez meu coração parou… Ela realmente estava interessada em mim, caso contrário não me convidaria para cantar com ela. E se eu não soubesse a música? Antes que eu refletisse mais sobre isso, ela disse:

– Way back into Love, from Music and Lyrics, with Hugh Grant and Drew Barrymore. Do you know?

Eu sabia qual era o filme e até sabia qual era a canção, mas não, não sabia cantá-la. Procurei pensar rapidamente em alguma outra canção que eu soubesse e que pudesse ser cantada em dupla quando ouvi a voz do traidor:

– Eu sei! É meu filme favorito! Gosto demais dessa música!

Heather voltou-se para Victor, e minha vontade era que um raio interplanetário o atingisse naquele momento, desintegrando-o, para que não restasse qualquer vestígio de que, em algum momento da história da humanidade, tivesse existido aquele canalha.

Do you know, perguntou-me novamente Heather.

– No, tive que responder.

I’ll sing with him, disse-me ela, ao mesmo tempo em que, sem perceber, pisava em meu coração.

Os dois foram até o palco e cantaram divinamente, preciso reconhecer. A voz dela era celestial, e Victor, apesar de ter uma pronúncia imperfeita, mostrava que conhecia bem a música e, principalmente, cantou PARA Heather. Cada frase que ele pronunciava, olhava bem nos olhos azuis e encantadores da americana, que já não era mais a minha amada. Eu percebi o exato momento em que a perdi: quando ele cantou

And if I open my heart to you

I’m hoping you’ll show me what to do,

And if you help me to start again,

You know that I’ll be there for you in the end!

Ela não desgrudou mais dele, e parecia que tinha aprendido todo o português do mundo naquele instante, ou que ele era professor de inglês. Ainda fiquei até o fim da festa para contemplar a minha frustrante derrota.

A mulher da minha vida, o encontro improvável, a prova de que o destino existe, e eu deixei passar porque não estava preparado, porque não conhecia uma música em inglês.

Desse dia em diante, não ouvi uma só música em português. Preciso conhecer todas as músicas que um americano médio conhece, porque sei que o destino insiste, não se deixa vencer. Se está determinado que vá conhecer a garota da minha vida daquela forma, por meio da letra de uma canção, não me permitirei falhar. Pode ser que daqui a alguns meses haja uma nova festa, outra despedida, e Heather volte a se encontrar frente a frente comigo.

Se isso acontecer, e se surgir a oportunidade de cantar novamente, sei que conhecerei todas as músicas possíveis (à exceção de Paramore, Britney Spears e seus congêneres, pois não acredito que minha alma gêmea possa gostar de algo assim).

Sei que a minha resposta ficou grande, sei que ultrapassei em muito o que estava estabelecido no regulamento da promoção (muito mesmo, já que o máximo eram vinte linhas), mas eu precisava desabafar com alguém, então, mesmo sabendo que estou desclassificado, essa é a minha resposta à pergunta “Por que você só ouve música em inglês?”.

Até encontrar a minha amada, seguirei cantando:

I’ve been searching but I just don’t see the signs,

I know that it’s out there,

There’s got to be something for my soul somewhere.

Quando estiver com ela, aí sim, poderei voltar a cantar:

És láctea estrela

És mãe da realeza

És tudo enfim

Que tem de belo

Em todo resplendor

Da santa natureza…