Fotografia da minha autoria

O tom cristalino de um lago encerra em si uma infinidade de porções que não somos capazes de decifrar: seja pela imensidão, seja pela perspetiva de onde o observamos. É nesse jogo de contrastes entre luz e sombra que se constrói o livro de Joana Bértholo.

 entre a realidade e a ficção

O Lago Avesso é uma hipótese biográfica que pretende colmatar o hiato entre a vida e a obra de Ella Bouhart, uma coreógrafa consagrada que «vive num sexagésimo quarto andar, no centro de uma metrópole», com vista privilegiada para um enorme jardim e um lago. Nesse horizonte, que observa todos os dias, procura decifrar as várias cores predominantes e, por consequência, refletir sobre os lugares onde não é capaz de ir, «os territórios da sua vida que se sente incapaz de ocupar», bem como o seu inverso.

Eu que não sei nadar dei por mim mergulhada na profundeza destas águas oscilantes, desta narrativa construída a retalhos, ambiguidades, múltiplas perguntas e repetições. Creio, inclusive, que nos leva para fora de pé, porque em nenhum momento é claro o que desta história poderia ser verídico ou ficcional. Através da personagem principal, a autora desenha um retrato de pessoas distintas, com quem nos poderíamos cruzar na rua - ou ser um espelho dos nossos heterónimos. Além disso, é um livro cheio de movimento, bastante visual, e, por esse motivo, entramos numa espiral vertiginosa.

Em boa verdade, parece que assistimos a uma coreografia cuidadosamente idealizada, silenciosa, que nos deixa no limbo do entendimento. E eu gosto que a escrita da Joana Bértholo nos desperte esta dúvida constante, atendendo a que a mensagem aparenta prolongar-se para além do texto, para além da imagem que interpretamos de imediato. E gosto que nos apresente uma personagem moralmente questionável, envolta numa série de polémicas. Este último ponto não é o que desejamos das pessoas, no entanto, sinto que a humaniza e que nos coloca, por um lado, num lugar de desconforto e, por outro, a abraçar um exercício de empatia onde não encaixam julgamentos rápidos.

«Há pensamentos assim, que impedem outros, pensamentos que trancam portas e que calam vozes. Que não permitem o direito ao contraditório»

O caminho é labiríntico e achei interessante a ideia da sombra, assim como a certeza de irmos descobrindo Ella pelas situações que a rodeiam. A dado momento, parece que ela é apenas um corpo naquele cenário, observando a vida que corre fora de si, tecendo possibilidades, esbatendo limites, ficando à margem a a recolher os reflexos de uma realidade sempre em mudança, enquanto nós esperamos unir as pontas soltas.

O Lago Avesso é incomum e, por vezes, senti que estávamos perante o final de um ato, quando as cortinas descem e as luzes se apagam. Há tanto que continua a ser escrito nessa tela vazia, porque há fragilidades que se escondem no silêncio, mas que ecoam por dentro, há problemas indecifráveis a olho nu, mas que corroem os alicerces, há problemas que se escondem, mas que aumentam e nos transformam em ruínas. Este livro desafia-nos, mas entrelaça-se às nossas emoções, sendo difícil largar a mão.

 notas literárias

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