Aqui há tempos pediram-me que prefaciasse as histórias infantis de Clarice Lispector, que vão sair na editora Fábula. São incríveis, claro, e sobretudo muito diferentes do que geralmente são os textos para crianças. Nestas histórias, quase todas com animais, a grande escritora brasileira interpela os seus leitores constantemente e até pede desculpa às crianças por ter deixado morrer os peixinhos de aquário do filho, por se ter esquecido de os alimentar. Clarice conta ter escrito literatura para a infância apenas porque o filho mais velho achou que, se ela escrevia para os outros, teria de escrever também para ele; e, de facto, se lermos Perto do Coração Selvagem ou A Paixão segundo G.H., não imaginamos Lispector a escrever para a pequenada. Mas claro que ela sabe o que faz. Foi talvez o tal prefácio a levar-me ao último romance da autora, A Hora da Estrela, que ainda não tinha lido e que foi escrito pouco antes da sua morte. A obra cruza duas personagens: um escritor chamado Rodrigo e Macabéa, uma dactilógrafa provinciana, feia e sem graça que vai para o Rio de Janeiro trabalhar, mas passa os dias sozinha porque nunca se adapta à vida na cidade. O mais engraçado é que quem conta a história de Macabéa é Rodrigo, o escritor que inveja até certo ponto a liberdade da sua personagem. A edição, muito bonita, é da Companhia das Letras, que publicou mais uns quantos romances desta autora.
O que ando a ler
Texto originalmente publicado em Horas Extraordinárias