Dalilândia
tempo, finitude, pressa, sociedade contemporânea, filosofia da cotidianeidade, Salvador Dalí
Quadro de Dalí:A persistência da Memória, 1931/Museu de Arte Moderna, Nova Iorque Não havia relojoeiro da região que pudesse ajeitar uma corda boa o suficiente, uma bateria forte o suficiente, um maquinário lubrificado o suficiente que soubesse funcionar. Chronos estava em greve! Sibélia Zanon* O arancuã pantaneiro acorda feliz pela manhã enquanto os humanoides acordam enfezados, já dizendo que não tiveram tempo nem para dormir. A saracura acorda cantando na Mata Atlântica e os humanoides acordam querendo emudecer a sua voz e anoitecer o sol para ter mais tempo na cama. Muda o bioma, mas o bicho humano permanece o mesmo. É assim que começa o dia de chronos, o tempo. Ele não quer ouvir mais nenhum pio porque só anda escutando reclamações. Outro dia mesmo eu estava tomando um café com uma amiga, daqueles que se esticam por quatro horas, enquanto ela reclamava: – Nossa, não tenho tempo para nada! Nem para dormir. Enquanto desfilava seu destempero pelas horas escorregadias, outras três pessoas faziam a mesma reclamação naquele mesmo momento, naquele mesmo quarteirão. E eis que o tempo se revoltou. Chronos se cansou do apreço dos humanoides por viver em desespero, como se a pressa fosse modo de vida: sempre atribulados, sempre atrasados, sempre lotados, sempre concluindo a tarefa na última batida do gongo… Viver com a pressão e o sofrimento impostos pelo tempo é coisa engrandecedora. Que graça teria estar em paz por já ter entregado o trabalho antes do prazo? O perigo de dar a impressão de ser uma pessoa desocupada! – Como assim? Já fez? A visita deve chegar às 19 horas. Às 18h53 você vai tomar um banho. Por que faria isso às 17 horas? – Como assim? Já está pronto? Naquele dia, quando minha amiga reclamou do tempo junto com mais três pessoas ao mesmo tempo, no mesmo quarteirão da mesma cidade… o relógio da cafeteria não resistiu à pressão e começou instantaneamente a se derreter. E os relógios grudados aos pulsos de todos os fregueses de todas as cafeterias daquela cidade inteira ficaram paralisados. Os celulares apagaram os minutos como quem não tem memória. Uma formiga passeou por cima de um ponteiro paralisado, zombando da situação. Não havia relojoeiro da região que pudesse ajeitar uma corda boa o suficiente, uma bateria forte o suficiente, um maquinário lubrificado o suficiente que soubesse funcionar. Chronos estava em greve! Contrariando a matemática de seus ponteiros e sem fraquejar em nome das aflições humanas, chronos ficou imóvel. Os despertadores pararam de tocar. O tempo parou de ser medido por ponteiros. A cidade inteira se sentiu completamente perdida. Relógios derreteram. E o coro se fez: – E agora que podemos ser felizes, do que vamos reclamar? *É jornalista, escritora e autora de Espiando pela Fresta.
Texto originalmente publicado em Revista Fina