O texto abaixo junta resenhas publicadas originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 2 e 9 de novembro de 2004
Em City of God, de E.L. Doctorow, tentativa meio frustrada de sintetizar ficcionalmente a virada do milênio, se pode ler, sobre Nova York: “Os infelizes migrantes do mundo acham que, se conseguirem apenas chegar aqui, poderão fincar um pé. Manter uma banca de jornais, uma birosca, dirigir um táxi… o que pintar. Você quer dizer a eles que este não é um lugar para pessoas pobres. A linha de fractura racial que corre pelo coração da terra também corre através do seu coração. Somos seres étnicos sujeitos a um código de cor e criadores de enclaves sociais, multiculturalmente desconfiados e verbalmente agressivos, como se a cidade, considerada como uma Idéia, fosse um fardo pesado demais até mesmo para as pessoas que moram nela”.
Outro grande escritor, Salman Rushdie, ousou encarar de frente a virada do milênio elegendo Nova York, o centro do Império, como ponto de inflexão, apesar do resultado não ser tão caudaloso quanto suas imensas (e fabulosas) obras-primas anteriores (Os filhos da meia-noite; Os versos satânicos; O último suspiro do mouro). Enquanto Doctorow investigava manifestações de Deus na secularização triunfante (e Deus é uma obsessão norte-americana, junto com as armas, como bem lembrou Harold Bloom), FÚRIA (Fury, 2001, traduzido por José Rubens Siqueira e lançado pela Companhia das Letras), o modesto —em páginas— romance do milênio de Rushdie , atualiza o mito grego das Erínias, ou seja, as Fúrias, as divindades destruidoras que ameaçam seu protagonista, Malik Solanka, no primeiro verão do novo milênio, enquanto Bush e Al Gore, ou Gush e Bore, se digladiam pela posse da coroa do Império, com os resultados que conhecemos.
Solanka está longe de ser o migrante pobre que tenta fincar pé na terra da promissão americana. Pelo contrário, está rico devido à criação de uma boneca, Little Brain, um dos produtos mais rentáveis da indústria cultural. Amargurado com o destino da sua criatura, e após um ligeiro surto psicótico (quando pensara em assassinar esposa e filho), ele abandona sua família em Londres, como já riscara da sua vida suas origens, em Bombaim, procurando a América como lugar de renascimento. Dentro de si ele surpreende o regurgitar de uma raiva avassaladora, com lapsos de memória que o levam a suspeitar que bem poderia ser o assassino de três belas jovens da alta-sociedade, enquanto o eterno ruído da cidade o persegue: “A cidade estava lhe ensinando uma lição. Não havia como escapar da invasão do barulho. Viera em busca de silêncio e encontrara um ruído maior que aquele que deixara para trás. O ruído agora estava dentro dele”.
Penso no protagonista de Cosmópolis, de Don De Lillo, que diz: A cidade come e dorme barulho. Ela faz barulho em qualquer século. Faz os mesmos barulhos que fazia no século XVII, mais os outros que surgiram de lá para cá”. Ele também diz: “O futuro se torna insistente… o passado está desaparecendo. Antigamente, a gente conhecia o passado, mas não o futuro. Isso está mudando… Precisamos de uma nova teoria do tempo”. Em FÚRIA, o ruído da cosmópolis corresponde às potências destruidoras agitando-se dentro de Malik Solanka, o professor de história das idéias (passado) que ficou rico com a criação de uma boneca-ícone da indústria cultural (a insistência do futuro).
“Debaixo da auto-satisfação retórica dessa América empacotada, homogeneizada, dessa América com 22 milhões de novos empregos e a maior taxa de casas próprias da história, dessa América Shopping Center dona de ações, de orçamentos equilibrando-se, baixo déficit, as pessoas estavam estressadas, pirando, e falando nisso o dia inteiro em supercadeias de clichês burríssimos”.
Não pense o leitor que FÚRIA se limita a ser essa diatribe anti-Império Americano, embora haja passagens assassinas, de uma forma que Michael Moore jamais sonharia. A grande força de Salman Rushdie, apesar de todo o magma discursivo do livro, que não poupa nada e ninguém, ainda reside no seu talento incomum de contar histórias, com relação ao qual não parece ter perdido o prazer (ao contrário de Doctorow), na teia emocional que ata Malik Solanka às três mulheres mais importantes da sua vida: sua esposa; Mila, uma garota sérvia que lembra (pois quer fazer lembrar) sua boneca Little Brain; e sua verdadeira paixão, Neela, que fará com que ele se confronte com sua infância e o arrastará para fora de Nova Iorque,a city of god da hora, ainda que para se dar conta de que a Fúria, ou seja, aquela linha de fractura racial que corre pelo coração da terra, está confortavelmente alojada no mundo todo.
Na visão escabrosa de Rushdie, a condição-boneca se torna o epítome da deterioração do material humano, daí a intensa associação entre esse artefato lúdico e três jovens da alta-sociedade barbaramente assassinadas (“Um corpo morto na rua parece muito uma boneca quebrada”). Em sua origem, a boneca representava diretamente uma pessoa e era um perigo em mãos alheias.Mais tarde, com o advento da produção em massa, tal ligação se rompeu, pois as bonecas passaram para a esfera da linha de montagem, sem personalidade, uniformes: “Tudo isto estava mudando de novo. A conta bancária de Solanka devia tudo ao desejo das pessoas modernas de possuir bonecas não apenas com personalidade, mas com individualidade. Agora mulheres vivas queriam ser como bonecas, cruzar a fronteira e parecer brinquedos. Agora a boneca era o original, a mulher a representação”.
Nesse caos,com seres humanos-brinquedos,com o virtual devorando o real, há espaço no entanto para um momento literariamente extraordinário, de resgate do Mito em plena cosmópolis. Mila, a garota que imitava a boneca de Solanka, o leva para o mercado da alta-computação, e vendo-a em frente ao seu laptop, ele assiste, na verdade, à aparição daquele tipo de entidade tão recorrente na cultura da Índia, a que destrói e refaz o mundo: “Mila como Fúria, a engolidora do mundo, o eu como pura energia transformadora. Nessa encarnação, era simultaneamente aterrorizante e maravilhosa”.
VER UMA VERSÃO DO MESMO TEXTO, NUM CONTEXTO MAIS AMPLO EM:
https://armonte.wordpress.com/2010/05/17/doctorow-rushdie-delillo-e-a-virada-do-milenio/





