Não Chames a Noite | Amos Oz

Sem nunca abandonar o virtuosismo com que agarra a escrita, Amos OZ enche a sua narrativa de gestos do dia-a-dia, do realismo quotidiano das pessoas comuns. Quando atingem a idade em que se apercebem da sua finitude e o tempo à sua frente lhes parece escasso, as pessoas comuns são acometidas de propósitos que capturam os seus sonhos.

A morte de um jovem por overdose desperta na consciência de Noa a necessidade de agir, estilhaçando o tédio em que a sua vida mergulhara. A intimidade do casal Noa e Theo é perturbada por um acontecimento que se instala como um intruso, que os questiona e os leva a redescobrirem-se, a vencer ritmos diferentes onde, algures, um ponto comum lhes devolve a paz.

A descrição física dos espaços com a rigidez de um inventário, entrecortada pelo uso da metáfora, sempre que ensaia um registo mais solto, e o tom casual com que descreve os ambientes e as pessoas que os ocupam, funciona como uma trilha sobre a qual a narrativa progride. Uma escrita onde, na omnipresente identidade de Israel, não entra a causa Palestina (ao contrário de outras obras do autor). Estamos perante um país que se constrói sobre o deserto, nas franjas do holocausto e da sua evocação, e da forma como isso o posiciona face ao desafio da modernidade.

Volvidos dez dias, entregou-me o trabalho. Era uma composição com poucas folhas, cautelosa, redigida como que em surdina. À síntese final acrescentou uma linha a título privado, entre parênteses: «Afinal. O conto sempre me disse alguma coisa, apesar da obrigação.»

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