(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de dezembro de 2001)
“Eu não matei para obter recursos e poder… Eu simplesmente matei; matei para mim, só para mim… não era do dinheiro, Sônia, que eu precisava, quando matei; não era tanto o dinheiro que me fazia falta quanto outra coisa… Eu precisava saber de outra coisa,outra coisa me impelia naquela ocasião; eu precisava saber, e saber o quanto antes: eu sou um piolho, como todos, ou um homem? Eu posso ultrapassar ou não? Eu ouso inclinar-me e tomar ou não? Sou uma besta trêmula ou tenho o direito de…[…]Sim, mas como matei? Aquilo lá é jeito de matar? Por acaso alguém vai matar como eu fui naquele momento? Algum dia eu te conto com eu fui. Por acaso eu matei a velhota? Foi a mim que eu matei, não a velhota! No fim das contas eu matei simultaneamente a mim mesmo, para sempre.”
Não se pode terminar o ano sem comentar um dos seus principais eventos: a tradução de Paulo Bezerra para Crime e Castigo (Prestuplenie i Nakazanie, 1866), o primeiro dos quatro romances supremos de Fiódor Dostoiévski (os outros são O Idiota, Os Demônios e Os Irmãos Karamázovi).
Não que faltassem traduções poderosas do livro, como a de Rosário Fusco (do francês) e a versão portuguesa de Natália Nunes, que são as que eu já lera integralmente. Mas o grande tradutor colocou-se o desafio monumental de enfrentar o original russo de um texto que exige uma intensidade de leitura que talvez nem mais seja possível hoje em dia.
Pois quem já leu Crime e Castigo jamais consegue esquecer determinadas cenas, fora a atmosfera toda do romance, permeada pelo assassinato da velha usurária e de sua irmã. Por exemplo, quem consegue esquecer a cena em que Raskólnikov, na primeira visita em que faz à prostituta Sônia, inclina-se até o chão e beija seus pés, dizendo: “Eu não me inclinei diante de ti, eu me inclinei diante de todo o sofrimento humano”?
Algum outro autor que não fosse um Dostoiévski conseguiria partir o coração do leitor com uma cena tão potencialmente ridícula (e, aliás, não faltam elementos “ridículos” em todos os grandes textos dostoiévskianos)?
O mesmo Raskólnikov, muito tempo depois, na Sibéria, sofre o impacto da revelação do seu amor por Sônia (a quem tratava tão mal, apesar de ela ser a “representante viva do sofrimento humano”), ao olhar pela janela do hospital da prisão: “Ela estava em pé e parecia esperar algo. Nesse momento alguma coisa cortou o coração de Raskólnikov.” E do leitor também, por mais que lute contra essa emoção quase masoquista.
E o suicídio do inesquecível vilão psicológico que é Svidrigáilov (apaixonado por Dúnia, irmã de Raskólnikov), estourando os miolos e dizendo: “Para a América!”?
E as maravilhosas cenas que envolvem Catierina Ivánovna (madrasta de Sônia), a personagem feminina mais marcante de um livro onde não faltam personagens marcantes? A reunião de exéquias do marido dela, a sua loucura pelas ruas de Petersburgo, e a sua morte (ela é tuberculosa) são momentos indescritíveis, que mostram bem a diferença entre ler uma cena genial e comentá-la.
Como Dostoiévski pode ter criado um Raskólnikov, um Svidrigáilov, um Porfiri Pietrovitch (o funcionárilo da Justiça russa que suspeita de Raskólnikov e atormenta-o em um jogo de gato e rato) e uma Catierina Ivánovna num mesmo livro?
É engraçado haver tanta gente que lê histórias “edificantes”, de “superação” (quando não religiosas), e Crime e Castigo, essa obra-prima da literatura, é o livro mais edificante e religioso já escrito.
Todo o processo narrativo consiste em humilhar o orgulho intelectual de Raskólnikov, que o levou a cometer um crime para verificar se pertencia à família dos grandes homens (a quem é “permitido tudo”), até que ele aceite com humildade a sua redenção através do amor cristão de Sônia (nas anotações sobre o romance, pode-se ler: “Não existe felicidade no conforto, a felicidade adquire-se em troca de sofrimento. O homem não nasceu para a felicidade”). É duro de engolir, é piegas, leitor, é isso que você está pensando? Experimente, então, ler impunemente o romance. Todos os julgamentos desse tipo ficam suspensos diante de Dostoiévski.
Por outro lado, Crime e Castigo revela, com terrível realismo, os mecanismos de uma sociedade opressiva, no sentido policialesco e autoritário. Sonhando em ser um Napoleão no seu cubículo, Raskólnikov só percebe o quanto é restrita a liberdade após cometer seu crime. Antes de Kafka, Dostoiévski mostra a engrenagem burocrática e jurídica que tolhe o movimento do indivíduo. É por isso que o livro parece ainda tão moderno e influenciou de maneira definitiva a ficção, inclusive uma das suas grandes tendências: o romance policial.
Raskólnikov, o Hamlet russo que no final é derrotado por sua Ofélia, ao contrário do ancestral dinamarquês, é também um personagem histriônico, como se seu drama se desenrolasse diante de um público. Esse aspecto teatral fornece um grande dinamismo aos livros de Dostoiévski (facilitado pelo fato de que poucas vezes os personagens conseguem ficar sozinhos—geralmente estão cercados por uma multidão, como a que se reúne no cubículo de Raskólnikov), e aqui nos acompanhamos verdadeiras performances, seja a de Marméladov (o pai de Sônia e marido de Catierina Ivánovna, bêbado contumaz que morre em conseqüência de um atropelamento), sejam as de Svidrigáilov, as de Porfiri Pietróvitch, e especialmente as de Catierina Ivánovna.
Ao teatro (Dostoiévski foi um grande fã de Shakespeare e parece ter tirado muito proveito disso) se une o folhetim: é o caso da grande cena, na qual outro vilão apaixonado por Dúnia, Lújin, acusa Sônia de roubo em meio às exéquias do pai dela. E pensar que o nosso público de hoje acredita encontrar emoções nos aborrecidos, amorfos e inúteis folhetins da tevê.
Teatro, folhetim, drama psicológico e metafísico, parábola de redenção mística, debate de idéias, painel social. É isso Crime e Castigo e a obra desse russo que viveu de 1821 a 1881: é apenas um pouco menos que a Bíblia.






