14
Jan20
Maria do Rosário Pedreira
Não sei se sabem, mas a FLIP, celebérrima festa literária brasileira anual, não tem sempre o mesmo curador (no passado, estiveram nesse lugar pessoas como Paulo Werneck, que é um dos actuais jurados do Prémio LeYa, e Josélia Aguiar, autora da biografia de Jorge Amado). Ora, a curadora deste ano, Fernanda Diamant, ao anunciar o autor homenageado (a poetisa norte-americana Elizabeth Bishop, que viveu muitos anos no Brasil), não sabia que estava a largar uma autêntica bomba. É que Bishop não só não é uma autora nacional, como têm sido, creio, todos os escolhidos pelos curadores anteriores (e, segundo alguns intelectuais brasileiros, o Brasil está a precisar como nunca de se afirmar culturalmente por causa do governo ignorante e anti-cultura que tem), mas também é uma mulher que escreveu coisas muito desagradáveis sobre o país-irmão do "alto do seu horror às massas", como diz Alexandra Lucas Coelho num artigo do Público, e além disso aplaudiu o golpe militar de 1964. Todos pedem, claro, que não se deixe de ler a poesia de Bishop, que encontrou no Brasil a paixão da sua vida (a arquitecta Lota de Macedo Soares) e viveu ali uma relação certamente difícil nos anos 1950; mas ficam sentidos por, com tanta literatura brasileira no cânone, Diamant ter ido buscar um nome tão polémico. Mesmo entendendo que pensou mais no lado lésbico e feminista de Bishop, que é sempre um tema muito caro no Brasil, podia ter pensado duas vezes.