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Set22
Maria do Rosário Pedreira
Com as pupilas esforçadas nuns olhos surpreendidos pela luz, o que se devia dirimir seguidamente era a procura de um novo romance, o que todos os domingos o primoirmão lhe escondia nalgum ponto da casa. Porque depois de sair para a pândega todos os sábados, Rico, lindamente intacto e magnífico por estar selado o seu mistério, comprava-lhe um livro em segunda mão na feira da ladra dominical do bairro, o maior mercado de livros em segunda mão da Europa. Depois parava para beber um café a fim de temperar a bebedeira e acendia com os seus sublinhados frases que eram cãibras e passagens que eram pistas para o primo. Simón tinha de procurar o livro mesmo antes de se pôr diante do seu Cola Cao com grumos e das suas madalenas de La Bella Easo. Muitas vezes levava a cabo as suas pesquisas a partir de um enigma que Rico lhe colocava debaixo da almofada ou de um caminho de setas marcadas com fita isoladora. A pista também podia estar escondida nalguma notícia do jornal que o pai tinha deixado na cozinha do andar. Às vezes, inclusivamente, Rico soprava a pista a algum taxista madrugador e bêbedo, de maneira que Simón tinha de descer ao bar familiar e perguntar aos clientes, de caderninho na mão, com o roupão de lã como gabardina, se sabiam onde poderia estar escondido o seu novo livro. Este jogo, que Rico batizou como os Livros Livres, era a promessa de um jogo que nunca mais iria acabar: o jogo de viver segundo as fantasias de profissionais das vidas possíveis, grumetes, músicos e sobretudo espadachins.
Simón, de Miki Otero, tradução de José Teixeira de Aguilar