Fotografia da minha autoria

«Uma viagem pelas histórias mais inacreditáveis»

Os locais têm uma essência singular: pelas suas características arquitetónicas e estéticas, pelos detalhes que só encontramos por lá e, sobretudo, pelas suas pessoas - quer as residentes, quer as que estão de passagem. Porque imprimem uma aura que transita por distintas gerações. E é lindíssimo ver como há memórias que se partilham e como as próprias traçam a passagem do tempo, privilegiando a alma desses sítios emblemáticos.

Carolina Torres, «nome incontornável do entretenimento da última década», depois de conhecer o dono do Ménage, do Viking e de outros bares, assumiu o compromisso de documentar a história da noite do Cais do Sodré, sempre regada de álcool, melancolia, acontecimentos insólitos e fragmentos boémios memoráveis.

Se estas paredes falassem, contariam, de certeza, muitas histórias. O ditado é antigo, porém, acredito que se adequa a este projeto, até porque a jovem portuense proporcionou-nos isso mesmo: através das vozes dos donos dos estabelecimentos, dos empregados de balcão, dos porteiros, dos músicos, dos DJ's e de outros protagonistas que estiveram ligados ao Cais temos acesso a testemunhos únicos acerca da sua mística.

O CAOS DO SODRÉ

O documentário leva-nos numa viagem pelas décadas de 70, 80 e 90, mostrando-nos o foco na prostituição e a travessia para um lugar de convívio e de cultura, por onde «passaram poetas e assassinos, concertos», «música fixe, rock, pessoal da rádio e jornalistas». Nesta ilha dentro da cidade, há uma ligação com o mundo.

Nunca estive no Cais do Sodré, portanto, só conheço a sua energia por visões e comentários alheios, e é fácil compreender que existem muitos preconceitos em relação a este local, no qual a vida noturna também ficou marcada por violência, excessos e mitos. É por esse motivo que considero fundamental existirem trabalhos desta natureza: porque nos revelam o outro lado, porque contextualizam situações e porque nos permitem conhecer a verdade dos factos - sem romantismos, talvez com uma certa nostalgia. Embora seja uma produção «com zero rigor histórico e um budget de projeto-escola», tem charme e, ademais, autenticidade.

A mutação do Cais é inegável e evidenciada a cada intervenção dos convidados. Ainda assim, achei curioso que, direta ou indiretamente, todos destacassem que é um dos sítios mais democráticos de Lisboa, com a capacidade de acolher todo o tipo de almas, sem julgamentos, alertando-nos para as realidades complexas. Além disso, era palco de possibilidades e de uma multiculturalidade fascinante. No Cais, tudo podia acontecer.

As peripécias deste vilarejo junto ao Tejo, que envolvem marinheiros, o assassino de Martin Luther King e muita música, transmitem saudade pelo passado e pela incerteza do futuro. Ninguém sabe o que será do Cais do Sodré, tendo em conta a sua higienização, a adesão turística e o seu crescente lado comercial, e acho que essa preocupação - e, até, desanimo - é palpável. Porque fica a ideia que está a perder a sua identidade.

Caos do Sodré talvez seja uma despedida coletiva, mas será, sem dúvida, uma carta de amor a um espaço que teve tanto de libertino, como de porto seguro; que teve tanto de sujo, como de criativo. Há capítulos que se encerram lentamente, mas as memórias perduram no tempo. E, creio, mesmo que o Cais deixe de ser o que é, levando-os para longe, encontrarão maneira de regressar a esta casa que soube acolhê-los de braços abertos.