Bárbara Ferreira lê livros infantis.
O autor português (e não só) que provavelmente mais li em toda a minha vida é Álvaro Magalhães. Devorei a série Triângulo Jota até os meus 15 anos e, descobri recentemente, só não li os dois últimos livros da série. A magia especial de Triângulo Jota era o facto de as personagens - Joana, Jorge e Joel - envelhecerem ao longo da série, serem bastante realistas (muito mais que os protagonistas de outras séries infantis), ao mesmo tempo que as situações em que se metiam roçavam o paranormal e assustador sem serem totalmente absurdas.
O meu livro preferido dessa série - que desejo reler - é Sete Dias e Sete Noites, e aceito opiniões discordantes em defesa dos restantes.
O autor, portanto, não me era desconhecido, mesmo nunca tendo lido mais nada do seu (incrivelmente vasto) trabalho - ou seja, desconhecia a sua obra para um público alvo mais infantil, como é o caso da série Lucas Scarpone.
Lucas Scarpone não é um rapaz adolescente, como Jorge ou Joel - é um gato adulto, jovem, que gosta de pescar, é professor de qualquer coisa que não se percebe muito bem, e é presidente dos Gatos Amigos da Sesta (sendo fácil depreender daqui outro dos seus interesses). Os seus pais são donos de um restaurante beira-lago, onde ameaçam constantemente (sem saber) a vida dos peixes locais, seres mais sentientes do que eles julgam.
A vida deste gato é pacata e simples, até uma tarde em que decide ir pescar e algo o atinge na cabeça - tudo muda de um momento para o outro, quando Lucas descobre não só não ser filho biológico do casal Scarpone, mas também ter poderes sobrenaturais, tornando-se num herói acidental: tal como os super-heróis, não é por escolha própria, e muito menos por sua vontade (Lucas preferiria dormir uma sesta a ter de investigar eventos paranormais).
Explicam-se, assim, os títulos dos vários livros da série, que apontam para fantasmas, lobisomens, vampiros...
Mas algo mais vai mudar a sua vida - Lucas conhece, por estas andanças, Pandora, uma jornalista de um jornal que procura provar a existência de seres paranormais. Apaixonam-se e, juntos, tentam desvendar os vários mistérios com que são confrontados, bem como a verdadeira história de Lucas, tudo isto sob a constante ameaça do vilão Gorgonzola.
Os livros na série são sequenciais, fazendo pouco sentido se lidos isoladamente - fazendo também pouco sentido se avaliados isoladamente. São livros para devorar em série. O ritmo é rápido, as histórias conseguem ser surpreendentes, o humor nunca é forçado, mesmo quando os trocadilhos são muitos. O sobrenatural é muito mais assumido que em Triângulo Jota (talvez pela facilidade em tornar sobrenatural eventos num mundo com gatos falantes), as ilustrações são divertidas, há várias referências culturais (Indiana Jones, Rodolfo Valentino, Marylin Monroe...) e um polvo que adivinha resultados de jogos de futebol.
Nunca nada é forçado, aliás: apesar de, ao jeito de um bom livro infantil, "tudo acabar bem", não é particularmente previsível como vai acabar, seja cada livro, ou mesmo a obra no seu todo. De facto, na maioria dos livros, eu esperava um final totalmente diferente - especialmente no último, A Lenda do Rei Gatinho. Livros preferidos da série: Seis Fantasmas e Meio (ambas as partes), O Conde Gatrácula e O Lobigato, este último de certa forma reminiscente de Arthur Conan Doyle, no ambiente e no ser lendário, mas com uma narrativa muito diferente.
Super recomendado, a crianças e adultos que gostem de gatos, leituras leves, ou simplesmente livros infantis.
5/5 apesar de achar o último livro um pouco fraco (tinha as maiores expectativas)
Podem encontrar esta série aqui.



