01

Jun21

Maria do Rosário Pedreira

Pedi este livro por correio a uma livraria independente quando ainda estava a trabalhar em casa. Tinha lido uma excelente crítica, já tinha visto outros elogios a esta autora mexicana que vive nos EUA e escreve em inglês, estava, em suma, curiosa. Porque houve muita gente a ler a mesma crítica, o stock esgotou e, por isso, a tal livraria avisou-me que Deserto Sonoro, de Valeria Luiselli, levaria tempo a chegar (e essa é, no fundo, a razão por que só o comecei muito depois de o comprar). Estou a lê-lo muito dividida: percebo-lhe uma bem-vinda originalidade na mecânica e gosto da tensão. É também sobre um tema importante: a separação das crianças dos pais quando os migrantes mexicanos entram ilegalmente na América. Sim o romance fala de um casal que trabalha com sons, que grava maneiras de falar, ruídos do ambiente, cantos de pássaro, palavras, dialectos, gritos... com vista a documentar trabalhos de investigação. Conheceram-se enquanto captadores de sons numa tarefa que lhes correu bem e acabaram por apaixonar-se e ir viver juntos: ela é mexicana, ele norte-americano; ele tem um filho de dez anos, ela uma filha de cinco. São os quatro uma família porque não existe outra mãe nem outro pai por perto. Mas eis que um dia ela se interessa por umas crianças mexicanas perdidas que atravessaram a fronteira para ir ter com a mãe e nunca mais se soube delas; e, ao mesmo tempo, ele se interessa por documentar as vozes emudecidas dos índios apaches, os sons de Geronimo, Cochise e outros índios mortos... É o trabalho dele que vence. Têm então de atravessar a América de carro com as crianças, e essa viagem vai sem querer distanciando o casal e tornando claro qual é o objectivo de vida de cada um. Ainda me falta bastante para terminar este Deserto Sonoro, mas, confesso, está a custar-me avançar. É muito provavelmente uma questão de gosto pessoal, uma vez que há mesmo muito pouco tempo este Lost Children Archive (o título original) ganhou o Dublin Literary Award e já tinha sido nomeado para uma data de prémios. Leiam-no se o apanharem e depois dêem-me a vossa opinião.